












"Só porque um especialista em feng-shui disse que Bukit China - a Colina dos Chineses - era o pulmão da cidade e que sem ela Malaca sufocaria é que, há nove anos, um dos lugares mais históricos e românticos da cidade não foi entregue aos cuidados dos especuladores da construção urbana e das suas escavadoras."
Tiziano Terzani, in Disse-me um advinho
Quem me dera que tivesse havido um especialista em feng-shui que tivesse advertido que aquilo era o pulmão da autarquia e que os mandões, mais sensíveis a ditames de especialistas em feng-shui que a números de crescimento económico, tivessem sustado a matança.
Mas na minha aldeia, não há nem especialistas de feng-shui, nem mandões sensíveis, nem sequer um movimento popular que suste o pesadelo do verde que, perante as lágrimas de alguns, perece.
Ali em cima, as imagens da minha desolação. Da desolação do meu pedacinho de Oeste. Imagens tiradas pelo meu belo Perseu que, de lágrimas nos olhos, a meio desta semana e in loco, me dizia que a devastação era muito superior à que, a partir da estrada, adivinhávamos.
A distância e os múltiplos afazeres afastaram-me do preocupante tema, até que, ontem, na minha ronda semanal, pedi à minha prima C. notícias do crime. E, por entre a minha incredulidade, ouço-a: a Lagoa Seca desapareceu. Fiquei em transe. A Lagoa Seca? A Lagoa Seca que fica entre pinheiros a cerca de 2 Km da estrada principal? Espera aí! Significava isso que cortaram mais de 2 Km de pinhal?
Despedi-me à pressa e, roubando um quarto de hora à visita da minha mãe, resolvi ir ver o que se estava a passar.
Como sempre, ao sábado à tarde, Luís Caetano dava-nos a Força das Coisas. E eu sentia, pela primeira vez, a ironia.
Chegada à rotunda, vislumbrei o primeiro desbaste: perpendicular à estrada principal, paralelo à A8, destinado, ao que se sabe, a fazer um IP que ligue Tomar à Nazaré. Entre uma e outro sobraram duas ou três fiadas de pinheiros: alguém deve ter pensado e decidido que ficava janota um biombo de pinheiros. Uma tristeza de cenário, a fazer-me crer que um demónio – talvez um novo nobre adamastor – anda nas nossas barbas a estraçalhar-nos o verde com estradas e mais estradas. Indignada, rumei para o meu destino: a Lagoa Seca. Contornei a rotunda e entrei naquela estradinha tão minha amiga, tão minha conhecida, a estradinha com anos e anos de vida e bem assinalada com uma moderna placa castanha com letras brancas a não deixar qualquer dúvida: Matas Nacionais.
Mal a avistei, lembrei-me dos longos passeios de Verão, a pé e de bicicleta, por entre a sombra e frescura dos pinheiros e, sobretudo, da minha última caminhada pelos pinhais, já mulher madura, com os meus doces pais. Emocionei-me, claro. Na antena 2, Luís Caetano falava. Logo à entrada, do lado esquerdo, uma devastação já conhecida: ainda o meu pai era vivo e fizeram ali o primeiro estranho e absurdo corte nas Matas Nacionais sem que ninguém logre, até hoje, saber em nome de quê e de quem se cortaram aqueles vastos metros quadrados de pinheiros: uns zunzuns falaram na construção de um absurdo centro empresarial, mas há meses que aquele pedaço ausente de verde para ali está, vedado, sem que lhe seja dado destino.Do lado direito, ainda pinheiros, ainda mata nacional.
Continuo a avançar estrada fora por entre um concorrido movimento, nos dois sentidos, de camiões TIR: uns atulhados de madeira; outros vazios prestes a serem carregados.E, sem quê, nem para quê, na rádio os primeiros acordes do adágio de Barber e estremeço: o tal corte em vida do meu pai não tinha agora fim. Os pinheiros tinham pura e simplesmente desaparecido do lado esquerdo. E tinham desaparecido não na extensão de um ou dois metros desde a estradinha mas por muitos e muitos metros por ali adentro. Não sei medir a olho, não vos sei dar hectares. Sei sim que é um rectângulo vastíssimo, enorme que dará para implantar uma nova aldeia. E eis que o que há meses era pinhal, agora é um cenário dantesco de toros à beira da estrada, ramadas caídas por terra, maquinaria a sugar as raízes. E neste percurso de desolação, chego ao que era a Lagoa Seca. Uma bela e redonda clareira entre pinheiros que outrora fora povoada de pequenos charcos e riachos e que fazia contraponto com a Lagoa Grande, uns 4 Km mais à frente. Tinha, de facto, desaparecido: no lugar dos pinheiros circundantes resmas e resmas de toros e raízes de pinheiro, areias de pinhal revoltas, um profundo ar de devastação: nem árvores, nem arbustos, nem fetos: só maquinaria e areias revolvidas. De rastos, avancei ainda mais uns metros para ver onde é que aquilo parecia acabar e quando me pareceu encontrar o fim – até ver – voltei para trás e deixei que o adágio me inundasse e me deixasse chorar o que há meses não choro, revivendo, como num filme, breves e alegres flashes de uma infância feliz: ali, naquela estrada, por entre o olhar protector daqueles ora inexistentes pinheiros, aprendi, pela mão do meu pai, a andar de bicicleta e a valorizar as suas pinhas, a sua resina, as suas carumas e os amigos murta, fetos e rosmaninho.Continuo sem saber o que vão fazer naquela enorme extensão de pinhal cortado, sendo certo que, então como agora, quase compreendi a indiferença das gentes da minha terra: já não interessa o que vão fazer. O que interessa é que, sem passarem cavaco, sem submeterem o assunto a uma qualquer assembleia municipal ou até de freguesia, desataram a dispor das nossas matas nacionais, do nosso pulmão, da nossa infância e, subitamente, damo-nos conta que, como quando alguém nos morre, cortam-nos cerce a possibilidade de voltar, de repetir.
Quem me dera que tivesse havido um especialista em feng-shui que tivesse advertido que aquilo era o pulmão da autarquia e que os mandões, mais sensíveis a ditames de especialistas em feng-shui que a números de crescimento económico, tivessem sustado a matança.
Mas na minha aldeia, não há nem especialistas de feng-shui, nem mandões sensíveis, nem sequer um movimento popular que suste o pesadelo do verde que, perante as lágrimas de alguns, perece.
Ali em cima, as imagens da minha desolação. Da desolação do meu pedacinho de Oeste. Imagens tiradas pelo meu belo Perseu que, de lágrimas nos olhos, a meio desta semana e in loco, me dizia que a devastação era muito superior à que, a partir da estrada, adivinhávamos.
A distância e os múltiplos afazeres afastaram-me do preocupante tema, até que, ontem, na minha ronda semanal, pedi à minha prima C. notícias do crime. E, por entre a minha incredulidade, ouço-a: a Lagoa Seca desapareceu. Fiquei em transe. A Lagoa Seca? A Lagoa Seca que fica entre pinheiros a cerca de 2 Km da estrada principal? Espera aí! Significava isso que cortaram mais de 2 Km de pinhal?
Despedi-me à pressa e, roubando um quarto de hora à visita da minha mãe, resolvi ir ver o que se estava a passar.
Como sempre, ao sábado à tarde, Luís Caetano dava-nos a Força das Coisas. E eu sentia, pela primeira vez, a ironia.
Chegada à rotunda, vislumbrei o primeiro desbaste: perpendicular à estrada principal, paralelo à A8, destinado, ao que se sabe, a fazer um IP que ligue Tomar à Nazaré. Entre uma e outro sobraram duas ou três fiadas de pinheiros: alguém deve ter pensado e decidido que ficava janota um biombo de pinheiros. Uma tristeza de cenário, a fazer-me crer que um demónio – talvez um novo nobre adamastor – anda nas nossas barbas a estraçalhar-nos o verde com estradas e mais estradas. Indignada, rumei para o meu destino: a Lagoa Seca. Contornei a rotunda e entrei naquela estradinha tão minha amiga, tão minha conhecida, a estradinha com anos e anos de vida e bem assinalada com uma moderna placa castanha com letras brancas a não deixar qualquer dúvida: Matas Nacionais.
Mal a avistei, lembrei-me dos longos passeios de Verão, a pé e de bicicleta, por entre a sombra e frescura dos pinheiros e, sobretudo, da minha última caminhada pelos pinhais, já mulher madura, com os meus doces pais. Emocionei-me, claro. Na antena 2, Luís Caetano falava. Logo à entrada, do lado esquerdo, uma devastação já conhecida: ainda o meu pai era vivo e fizeram ali o primeiro estranho e absurdo corte nas Matas Nacionais sem que ninguém logre, até hoje, saber em nome de quê e de quem se cortaram aqueles vastos metros quadrados de pinheiros: uns zunzuns falaram na construção de um absurdo centro empresarial, mas há meses que aquele pedaço ausente de verde para ali está, vedado, sem que lhe seja dado destino.Do lado direito, ainda pinheiros, ainda mata nacional.
Continuo a avançar estrada fora por entre um concorrido movimento, nos dois sentidos, de camiões TIR: uns atulhados de madeira; outros vazios prestes a serem carregados.E, sem quê, nem para quê, na rádio os primeiros acordes do adágio de Barber e estremeço: o tal corte em vida do meu pai não tinha agora fim. Os pinheiros tinham pura e simplesmente desaparecido do lado esquerdo. E tinham desaparecido não na extensão de um ou dois metros desde a estradinha mas por muitos e muitos metros por ali adentro. Não sei medir a olho, não vos sei dar hectares. Sei sim que é um rectângulo vastíssimo, enorme que dará para implantar uma nova aldeia. E eis que o que há meses era pinhal, agora é um cenário dantesco de toros à beira da estrada, ramadas caídas por terra, maquinaria a sugar as raízes. E neste percurso de desolação, chego ao que era a Lagoa Seca. Uma bela e redonda clareira entre pinheiros que outrora fora povoada de pequenos charcos e riachos e que fazia contraponto com a Lagoa Grande, uns 4 Km mais à frente. Tinha, de facto, desaparecido: no lugar dos pinheiros circundantes resmas e resmas de toros e raízes de pinheiro, areias de pinhal revoltas, um profundo ar de devastação: nem árvores, nem arbustos, nem fetos: só maquinaria e areias revolvidas. De rastos, avancei ainda mais uns metros para ver onde é que aquilo parecia acabar e quando me pareceu encontrar o fim – até ver – voltei para trás e deixei que o adágio me inundasse e me deixasse chorar o que há meses não choro, revivendo, como num filme, breves e alegres flashes de uma infância feliz: ali, naquela estrada, por entre o olhar protector daqueles ora inexistentes pinheiros, aprendi, pela mão do meu pai, a andar de bicicleta e a valorizar as suas pinhas, a sua resina, as suas carumas e os amigos murta, fetos e rosmaninho.Continuo sem saber o que vão fazer naquela enorme extensão de pinhal cortado, sendo certo que, então como agora, quase compreendi a indiferença das gentes da minha terra: já não interessa o que vão fazer. O que interessa é que, sem passarem cavaco, sem submeterem o assunto a uma qualquer assembleia municipal ou até de freguesia, desataram a dispor das nossas matas nacionais, do nosso pulmão, da nossa infância e, subitamente, damo-nos conta que, como quando alguém nos morre, cortam-nos cerce a possibilidade de voltar, de repetir.
Os nossos passeios de Verão já não voltam.
16 comentários:
Que horror!
Ainda não sabes o que vão fazer? Achas que é a nova autoestrada Lisboa-Porto?
Não, querida, não sei.
As primeiras duas fotos referem-se, em princípio, ao tal IP Tomar-Nazaré.
O resto são os sinais de uma desvastação total e completa de kms e kms de pinhal com uma largura demasiado vasta para uma auto-estrada. Mas, confesso-te, não sei, não sei. E já não digo nada. 2ª feira vou mandar um fax para a Câmara a ver se me ligam alguma.
'Que horror' vinha eu dizer;
já o disse a Gi.
Está confirmado
Mande faxs e e-mails para a Câmara (não lhe ligam claro...) e para tod'a gente que conhecer
Nem sei que dizer.
Isso é uma loucura.
Lembra-me a Viana do Castelo da minha infância, e o horror do prédio que deixaram construir em frente ao rio.
Vim pelo "cheiros da terra" porque me cheirou a terror e não vem nos jornais. Não conheço a Lagoa, não conheço o lugar com pés de andar - deverei ter passado, apressada, de carro, contudo olhando com amor as margens verdes. Lembro-me que quando falam nos incêndios, no Verão ou quando a política aquece - impunes como esta devastação... - ficam todos a percentuar o que nos falta de verde.
O adagio lembra um desmoronar, as árvores foram ABATIDAS, ambas coisas de chorar...
E a nós chamarão velhos do restelo mas esta gente... são piratas, ladrões da Natureza, confirmados e autorizados!
Abç
Muito obrigada a todos.
Com as vossas palavrinhas de incentivo - isto às vezes, pelo facto de estarmos a lidar com recordações, emoções, coisas cá de dentro faz-nos ficar um bocadinho tolhidos e com a sensação de que estamos ver "coisa" onde ela não existe - e sobretudo com a preciosa ajuda da Antuérpia, amanhã de manhã, vou tentar fazer as perguntas certas às entidades certas. Dar-vos-ei nota do sucesso ou insucesso da encomenda.
Ainda estou com o coração a bater forte. Ver estas imagens fez-me lembrar outras, as dos meus pinheiros, meus mesmo, e de outros que foram abatidos para passar a autoestrada que passa pelo Marão.
Um abraço cheio de indignação e muita força.
O Têzinho já declarou, sinceramente penalizado por saber disto que, num projecto ambientalista escolar que a turma está a desenvolver, cuja parte que lhe cabe é a da concepção e construção de um globo terrestre pintado metade preto, metade de verde, que terá de roubar um pouco mais à parte verde :((...
bjs e força,minha querida.
Mas que razia! Até faz doer a alma.
Que imagens desoladoras, realmente, amiga querida! De partir o coração! Mesmo para quem não tem qualquer ligação afectiva áquele magnífico pinhal! Será que não havia outra alternativa com efeitos menos devastadores sobre tão valioso património natural? E como é que só se tem conhecimento destas devastações depois de consumadas? Não são objecto de consulta popular? Agora já é tarde para actuar! Aqui te deixo a minha solidariedade!
Al
Mas se é uma Mata Nacional a Autoridade Florestal Nacional(AFN) terá que ter conhecimento e ter autorizado. Ou será que estas matanças são feitas à revelia da AFN?
Independentemente da legalidade ou não da coisa, aquilo foi (está a ser) feito de forma tão rápida e discreta - ao contrário do que é costume quando há obras que beneficiam as populações, não há um único cartaz, nem sequer um papelote colado num poste - informando sobre o que vai sair dali. Facto consumado, não vale a pena falar mais nisso e quem for contra é porque é contra o progresso. Matas Nacionais? Pois sim, até ver.
Perseu
-pirata-vermelho: assim fiz, hoje pela hora de almoço, mandei faxes e emails para a Câmara Municipal e para a Autoridade Nacional Florestal. Não vai valer de nada, mas pelo menos alivio a minha consciência;
bela Helena: há sempre, pelo menos, uma ignomínia pelo nosso caminho.
bettips: obrigada pela visita e pelo generoso comentário. De facto, não vem nos jornais e sobretudo anda a ser feito tudo no maior silêncio. Como se o corte de hectares e hectares de pinhal não bastasse, cresce em nós a convicção de que algo de muito errado se passa ali;
Tétis, minha querida: do que o homem é capaz em nome do progresso e da melhoria das acessibilidades. Temo, aliás, que se alguma resposta houver aos meus emails e faxes será nesse injusto sentido: o progresso, o desenvolvimento;
Antuérpia adorada, obrigada, obrigada. Obrigada por tudo. Incluindo por essa consciência cívica e ambiental que incutes no teu rebento e que aliadas à sua sensibilidade e inteligência só nos auguram o seu belo e bom futuro.
prenunciam um homem bom.
Paulo: põe razia naquilo. Uma dor funda, funda, funda.
Al querido, havia, havia, claro que havia. Por aquela região do Oeste o que mais havia era outras opções: terrenos e mais terrenos e mais terrenos muitos deles em poisio ... mas com dono. E, sendo assim, como tu bem sabes há que expropriar e indemnizar e o Estado está teso. Antes pois, cortar pinheiros da Mata Nacional, vendê-los a, espera-se ao menos, bom preço e depois construir um qualquer mamarracho que encha de orgulho a povoação. Quanto às restantes tuas questões, ainda não sei responder. Não sei se houve Assembleias a que ninguém foi ou se pura e simplesmente estamos no domínio das decisões de gabinete. Uma coisa é certa, apurada ontem com a ajuda da Antuérpia: aquilo é, ou era, Mata Nacional e assim sendo alguma coisa teve de ser feita para possibilitar o seu corte e desafectação. E o que quer que tenha sido feito é estranho, muito etsranho.
Jorge Pinto: pois, é isso que estou a tentar descobrir: onde está a autorização da Autoridade e a que título se autoriza um crime daqueles. Se conseguir sabê-lo, darei notícias por aqui.
E sim, meu belo e adorado Perseu: isso é uma das coisas que a par do horror sobressai: a ausência de informação, de um mero cartaz a explicar o que é que se está a passar ali e depois essa enorme pressa que testemunhaste no feriado do Carnaval e eu no sábado passado. Acresce que é estranhíssimo que tenham feito o primeiro corte há meses e meses e que só agora tenham avançado para este crime. Tudo é profundamente estranho nesta história.
Mais uma vez: obrigada a todos pelos comentários.
Que tristeza de imagens, não imaginávamos que a área cortada pudesse ter este tamanho. Aguardamos com ansiedade a resposta dos responsáveis por este bem desaparecido. Parece realmente grande demais para o tal centro empresarial. No entanto, os movimentos de terras também não indiciam um simples corte periódico, como os que devem ser comuns nessas manchas de pinhal público. De qualquer maneira, mesmo que possa haver uma razão virtuosíssima por trás, essa mágoa que descreves não tem resgate. Beijos grandes.
Ah amiguinhos, maior que a minha mágoa, é a lástima de perdermos tão grande área de Mata Nacional para se implantar ali sabe-se lá o quê. Não tenho ainda respostas e provavelmente nunca as terei. Obrigada pelo colinho.
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