domingo, 30 de Novembro de 2008

Quick Silver


Em palco, a minha vida fica instalada entre a vida e a morte e, nesse tempo-espaço, o meu pensamento, o meu corpo, a minha vida, podem convocar muitas coisas. É o meu corpo, a minha vida, mas na forma de qualquer coisa exterior a isso, que vem simultaneamente do futuro, do passado e do presente. Acho que o meu corpo e o meu pensamento se tornam em algo diferente. Normalmente vivemos no presente, mas o que é o presente é a pergunta constante da vida. Tudo na vida é bastante acidental e frágil.”

Muito, muito estranho. Um sentimento de incomodidade perpassa todo o espectáculo, porque todo ele reconduz ao sofrimento, à (auto) flagelação, à agonia, à antecâmara da morte. Relidas aquelas palavras de Ko Murobushi, creio, agora, lograr entender a narrativa do que vi sábado à noite no pequeno auditório do CCB:
Tudo na vida é bastante acidental e frágil”. De toda a sorte e pese embora tudo agora me pareça inteligível, mantenho a adjectivação: estranho, muito estranho. Incomodamente estranho e, no entanto, bizarramente belo.

Verde que te quiero verde # 24

Adoro plumas.
Inebriadas de vento, esvoaçando claridade.

sábado, 29 de Novembro de 2008

Reivindicando a minha cópia

Bom fim-de-semana!

sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Espanta-cismas

Joan Mitchel, untitled

Estou francamente preocupada: os frágeis mercados inter-bancários portugueses e a calaceirice da entidade de supervisão não me deixam sossegar, temendo que não se trate de uma excepcional vaga pessimista desta que vos escreve.
No entretanto e para o caso de a preocupação aliada ao muito trabalho - acresce esse calvário - me coarctar a veia da edição, ficam os votos coloridos e desanuviadores de um bom fim-de-semana.

quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Pensar que me poderia chamar Alcobaça

Gonçalo Franco

Este engraçado exercício, trouxe-me à lembrança a Carolina Paioa, assim conhecida por ser natural do Paião. A Carolina Paioa enviuvou, em 1908, muito jovem. Sozinha, qual mãe coragem, criou um rancho de filhos, os Paioas: 4 rapazes e 3 raparigas, qual deles o mais bonito. A casa e o arneiro onde os Paioas cresceram deram nome à rua e, ainda hoje, mais de um século volvido, pela minha aldeia, há uma rua estreita e sinuosa denominada Casal das Paioas. Ter-me-ão contado, mas não me recordo por que carga de água a Carolina saiu do Paião e veio para a minha aldeia. Sei sim que por ali andava, ganhando os dias a trabalhar no campo. Um dia, indo à fonte, encontrou o Jacinto, jovem próspero e bem posto, que tinha ido ganhar a vida para o Brasil. Boa tarde, Carolina! Boa tarde, Jacinto! Então por cá? Imagina que vim casar com a rapariga mais bonita da aldeia … Casaram pouco tempo depois e fizeram aquela filharada toda. Ele regressou ao Brasil, onde veio a morrer muito jovem com uma doença de época. Ela ficou, bonita e sozinha, a tocar a vida para a frente: o mais velho, o Álvaro, tinha 12, a mais nova, a Maria, tinha apenas 2.
Gosto imenso desta história, especialmente do “vim casar com a rapariga mais bonita da aldeia”, ali mesmo, junto à fonte, com a bilha de barro a transbordar. Acredito que estas coisas se transmitem nos genes e que o desenrascanço dos meus bisavós maternos me há-de habitar as veias. Assim como tenho a certeza que as cachopas do meu tempo muito têm perdido com a água canalizada.

Pano para mangas


A minha mãe era uma exímia costureira. Uma verdadeira mãos de fada. Nos poucos intervalos do muito trabalho que tinha, gostava de fazer umas toilettes novas para a sua menina que queria sempre au point. Eu, vaidosita, pese embora adorasse o resultado final, resmungava infinitamente durante todo o processo que me fazia estacar e rodar lentamente em cada uma das secantes provas e me prendia ao sofá a rematar pontas, tirar alinhavos e fazer bainhas. “Sofrer para ser formosa” era uma coisinha que, então, a minha mãe repetia no contra-ataque à minha adolescente rabugice.
Hoje em dia, sem o empenho da minha mãe e com uma aversão visceral às compras, dou por mim a ligar muito pouco aos trapos, reconhecendo, no entanto, o papel fundamental que eles têm na identidade. E se é certo que longe estou de viver uma ditadura da moda, não menos certo é que vivo – e sofro –, há anos, com os ditames do meu mundo do trabalho que me obriga a usar uma indumentária que, dificilmente, poderá espelhar o meu eu. Rebelde, tento fugir ao padrão, sujeitando-me a reparos como os desta manhã quando, comparecendo a uma reunião surpresa, me perguntaram pelo casaco.
Enfim, são isto apontamentos dispersos de um assunto que dá pano para mangas e que hoje me ocorreu ao ler este excepcional ensaio da Ana Cristina Leonardo.

Proserpine


Pelos dias que correm, volúvel, saltitei do Orfeo de Monteverdi, para esta deliciosa Proserpine de Lully. Conselho de amiga, apesar do audio acabar abruptamente, se tiverem paciência, deixem-no a tocar, enquanto, v.g., descascam as batatas: a sério que vale a pena e não garanto que não poupem na polpa.

O Senhor Borges

Comprei-o a 5 euros, num saldo da Fnac.
“O Senhor Borges” é um livro de 2006, escrito por um investigador da vida e obra de Jorge Luís Borges – Alejandro Vaccaro - que se dedicou a entrevistar a “servidora fiel” de Borges, Epifania Uveda de Robledo, a Fanny que se recusou, a troco viagens e estadia pagas e ainda uma boa maquia “que bom jeito lhe daria”, ir a Genebra posar junto da campa do seu falecido patrão.
Comecei-o na 2ª feira, ao deitar, e todas as noites tenho lido um bocadinho, pese embora o livro me cause um evidente desconforto. Não gosto dos discursos directos que me soam a falso - admitindo, no entanto, que o problema não esteja na entrevistada -, não gosto da organização do livro, saltitando de forma descoordenada entre datas e eventos, não gosto das intervenções do narrador: enfim, é assim a modos que uma clara sensação de que não gosto do livro.
Porque insisto então?, perguntam.
Porque, evidentemente, a minha veia coscuvilheira é infinitamente superior à minha artéria literata.

terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Avaliação

Boris Lurie, No

Rosa Montero. Gosto muito. Tanto que não consigo deixar de a tratar por Rosinha. Ontem apanhei uns fiapos de uma conversa em que ela dizia, naquele seu despacho castelhano, que a vida é tramada. Sem dourar a pílula: a vida é tramada. Tem coisas extraordinárias, mas no cômputo geral, não lhe lixem as convicções, é tra-ma-da.
Ouvi-a, reafirmando a sua avaliação, e mais do que desencanto, senti-lhe, no timbre da sua acelerada voz, um certo amargo de boca.
Parei no vermelho, já perto de casa, e lembro-me de ter pensado que também ela precisava de uma suspensão da avaliação.

Possente spirito

“então a vida continuou, desenrolando-se, banal e corredia, como ela é*”

Alexandre Caldes, Necklace

Entrei com o meu passo enérgico, dei os bons-dias, abri o pc, saquei um cafezito, cumprimentei as minhas amigas formigas, vi o correio e pûs-me a dar a volta pelas minhas predilecções: mirei uns flamingos, espreitei umas belas pernas e, sobretudo, quedei-me em sorrisos com estas saborosas memórias. Voluntariosa, ainda pensei que gostaria de aliviar a monotonia do anão suicida, mas depois cogitei que, o mais certo, é ele ser um bartebly.

* Eça de Queiroz, in Alves & Companhia

segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

pirata vermelho e o metro de Lisboa (assim mesmo em jeito de astérix)

A propósito da minha desleal invocação e do alegado desapreço do comentador pirata vermelho pela língua anglo-saxónica, recebi, do mesmo, na caixa de comentários, a seguinte nota explicativa que, atenta a importância, reproduzo na íntegra:

E não é que hoje fui 'andar de metro'?

C'est à dire, aprender o truque do cartãozinho que serve para comprar um papelinho em vez de se comprar um bilhetinho, tout court.

Ora,

1) drama! não há instruções; nem empregados à vista

2) a ATM (AutoTicketMachine!) permite optar por uma ou mais ZONAS

Ora, pra mim, leigo - 'O qu'é isso?'

E vai de olhar à volta sem resultado.

E vai então de perguntar a um 'utente' com ar conhecedor.

E vai ele e leva-me a um mapa, na parede e

lá está!

- Coroa 1 e Coroa L

e, por baixo- ZONE

Bem, a máquina fala em ZONAs, o mapa em COROAs e para agravar acrescenta ZONE.

ZOUNE!? O qu'é isto? pergunto eu, ironizando, ao simpático utente.

E vai ele e responde, 'É inglês!' e foi-se, sem mais, com cara de quem acha que perdeu tempo com um tosco.

É disto qu'eu falo. E posso dizê-lo em mais quatro línguas

"Houve aqui alguém que se enganou*"


Na véspera do 25 de Novembro, um precioso e imperdível avivar da memória desenhado pela paleta da Joana Lopes: um vídeo profundamente eloquente e um poster e uma gravação audio absolutamente fascinantes sobre alguns dos pulsares do vingativo mês*:

* José Mário Branco, in Eu vim de longe

Feminine

"Porque sou tão infeliz? Porque sou o que não devo ser. Porque metade de mim não está irmanada com a outra metade. A conquista de uma é a derrota da outra."

Ei, ei, ei: não estou deprimida: é só mais uma frase do Pessoa.

Fiquei cheia de pena de não ter visto o masculine e, lembrei-me do comentador pirata e da sua aversão à língua inglesa. De facto, esse foi o elemento dissonante do trabalho: porquê dizer o Livro do Desassossego em inglês? Há-de haver uma explicação, mas a liturgia do espectáculo e o seu rarefeito programa não me esclareceram. No mais, uma excelente interpretação da actriz Margarida Gonçalves que, creio bem, nunca ter visto antes e uma coreografia muitíssimo original. Um dos meus queridos comparsas dizia-nos ter sentido um desconforto com o evidente desequilíbrio das prestações
das bailarinas. Eu, curiosamente, senti-o como um elemento do espectáculo, ou seja, um desconcerto atabalhoado tão, mas tão, feminino. A música é muito, muito bem esgalhada - passei o tempo todo a dar ao pé - e os figurinos são um colírio para olhinhos, dando umas irrepreensíveis elegâncias e modernidade ao espectáculo. Não me pareceu que o público tenha ficado rendido, o que me deu pena, porque, eu, particularmente, gostei muito. Ri-me como uma perdida e fiquei cheia de pena de não ter visto o masculine. Com tanta pena que até me repito.

Formiguinha

Há umas semanitas que partilho a minha secretária com duas amigas formigas que se passeiam pelos meus papéis, pelo teclado e por vezes pelos meus dedos e mãos. Mais do que apostar que sou doce, gosto de acreditar que estas se sentem bem junto dos seus.

Correios


Não sei se já lá estavam antes, mas hoje deparei-me com um escaparate com cds: Tony Carreira, Emanuel, Amália e umas selecções musicais de alguns jogadores portugueses de futebol que, na espera, muito me elucidaram sobre cada um deles: diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és.
Mas na verdade o ponto deste apontamento é tão só o de afirmar que, de há uns tempos a esta parte, sempre que entro nos correios, já não me pasmo. Limito-me a escrutinar cada canto, na expectativa de, finalmente, cocar o expositor dos preservativos e dos batons para o herpes labial.

Oito da manhã de sábado,

estava eu ferradinha a dormir, pese embora estivesse por cá um dia lindo de morrer e eu tivesse programado dedicá-lo ao muito trabalho atrasado. Leio-te e fico maravilhada pela tua generosa solidariedade e incomodada pela minha grosseira e dorminhoca passividade.

domingo, 23 de Novembro de 2008

... no desalinho triste das minhas emoções confusas ...*

* Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

sábado, 22 de Novembro de 2008

O cãozito de chopin # 2

Já sem aquela brutal dor de cabeça, com o soninho em dia mas o trabalho atrasado, a expectativa do feminine, logo à noite, na melhor das companhias, deambulo, com um enorme peso na consciência (o trabalho, ai o trabalho ...), pelas minhas predilecções e concluo que ele há abençoadas constipações ou gripes ou lá o que é e descarados rapinanços perpetrados por mim que me fazem mais feliz:



Tenham um maravilhoso fim-de-semana!

sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Enxaqueca

Philip Guston, Head and botle

Estala e quase rebenta. Parece que tenho um coração acelerado nela instalado. Na boca, um vago sabor a Vim, produto miraculoso dos anos 70 na limpeza das louças da casa-de-banho. Dizem-me: andaste na súcia. Olhe que não, olhe que não, respondo, desconcertada com o tom Ferreira Leite do meu interlocutor. E, no entanto, estala continuamente e eu percebo que, mais logo, ao chegar a casa, em vez de acender o televisor dirigir-me-ei à cama e direi num fiozinho de voz, ludibriando a solidão: desculpa, mas hoje não, hoje não.

Escaramuças brownianas

É uma autêntica novela. Não há semana que não me chegue pelo correio ou pelo email mais um capítulo. Tudo começou com a eleição: de um lado, Marinho e Pinto e o seu Conselho Geral, do outro os restantes orgãos da Ordem dos Advogados. Foi isso que os advogados portugueses ditaram há cerca de um ano: elegeram Marinho e Pinto para Bastonário, mas puseram nos restantes orgãos as listas concorrentes. Logo, na madrugada da contagem dos votos, percebeu-se que as escaramuças iriam ser o mote do triénio senão mesmo a sua morte. De então para cá, múltiplas têm sido as guerrilhas entre conversas de bastidores e cartas abertas abjectas e desprovidas de outro sentido que não seja a política do afrontamento e do achincalhamento. Agora, o Bastonário apertou o cerco aos restantes orgãos da Ordem determinando que os mesmos só poderão ter, para 2009, um orçamento zero: receitas iguais às despesas. Os interesses instalados - nomeadamente a formação que paga muitos milhares de euros a meia dúzia - saltaram a terreiro e voltaram a chover os comunicados, as cartas abertas, as cartas fechadas, os comunicados, os editais. Para a semana, há uma Assembleia Geral dos Advogados Portugueses destinada a votar a proposta de orçamento do Bastonário. Sempre vi Marinho e Pinto como uma perigosa bomba relógio auto-regeneradora. Mas percebo que a maioria dos advogados portugueses tenha querido justamente isso: alguém que escaqueirasse aquilo tudo. Ei-lo. Não concordando com a maior parte das suas posições, não me revendo no seu discurso, em suma, não indo à bola com ele, não deixo de pensar que gostava de ver na Assembleia de dia 26 quem nele votou a apoiá-lo. Mas ou muito me engano ou quem nele votou, enviando ou não procuração, estará em casa, sentado refasteladamente no seu sofá, com o cão estiraçado aos pés, a beberricar um excelente digestivo e a esfumaçar uma mal cheirosa cigarrilha, aguardando, com um sorriso tão tranquilo quanto melífulo, pelas notícias do escaqueirar. Espantar-se-ão, atirando-me à lembrança que Marinho e Pinto era o candidato dos descamisados. Sorrio, socorrendo-me do aforismo: nem tudo o que luz é ouro.

O cãozito de chopin

Bela de Berlim, sem dúvida, não há dia que não ache que isto é como o movimento do cãozito do Chopin: é aquele Cartola, se bem que não fosse aquela musiquinha: era mais esta. Nas deambulações apanhei esta outra, também do Cartola, naquilo que me parece ser uma interpretação magistral. Se nunca o confessei, confesso-o agora: o que eu me pelo por Ney Matogrosso.

Cromo


Confesso que já fui ao pote mais do que uma vez: estes dois belíssimos textos com imagens para além de me deliciarem, reconduzem-me a um livro que me encanta e que leio e releio, a misteriosa chama da rainha Luana do Umberto Eco: a natureza seminal dos prazeres lúdicos da infância. Assim como a personagem do Eco foi à procura da sua memória vasculhando nos seus livros e objectos de infância, jj amarante, apetrechado de uma máquina fotográfica, parte em busca dos lugares que visitou na sua meninice através das suas colecções de cromos. Delicioso. E depois acho uma graça desmedida quando jj amarante, socializando, incentiva os seus leitores a completarem as suas cadernetas cedendo ele, generoso e para tanto, as imagens digitalizadas. Detenho-me nesse convite e nas duas bonitas capas das suas cadernetas e ocorre-me que a única colecção de cromos que fiz na vida foi a do Vickie. Cada um é para o que nasce.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

el dia que me quieras (2)



Gardel, de 1935, com uma piscadela de olho para a Gi.

el dia que me quieras

Sou doentinha por tango. Quase tanto, como por fado. Há 10 anos atrás, justamente na Expo, vi num dos palcos periféricos um belíssimo concerto de diálogo dessas duas expressões musicais nacionais: uma fadista novinha (ia jurar que era a Mafalda Arnauth) em diálogo com um igualmente jovem cantor de tangos. Adorei o concerto e nunca mais perdi de vista as suas afinidades.
El dia que me quieras é, entre muitos outros, um dos fados de Gardel que mais me tira do sério: fico mesmo esfarrapadinha de todo. Há pouco, na pesquisa de um vídeo apresentável com o poema e musiquinha do Cartola para oferecer à minha amiga A., busca que resultou infrutífera (nunca vi tanta piroseira em tão pouco tempo), apanhei, inadvertidamente, este belíssimo momento de Plácido Domingo e Daniel Barenboim que achei por bem partilhar convosco: tenham um fantástico encerrar da semana!

Alfinetes

O Tejo a meus pés e agora a grande árvore de Natal na minha linha do horizonte.
Não fosse a promessa de terramoto dos próximos dias e eu não saberia do que me queixar.

Lascia la spina

Os dias não estão fáceis. Tenta, mas tenta mesmo, colher a rosa e deixar o espinho para trás. Saberás, por certo, que a rosa mais não faz que exalar o perfume que rouba de ti.

quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

"I will show you fear in a handful of dust" *

Não sei o que é que o viajeiro faz quando acaba o deserto. Gostaria de acreditar que, nostálgico, guarda no bolso interior do casaco um pedacinho de areia. Mas isto sou eu que, quando se me acabava a praia, aprisionava uns pedacitos de areia nuns inúteis de vazios frasquinhos de vidro que, em vida, continham os comprimidos para a tensão arterial do meu avô: mar da praia do Norte; mar do Salgado; mar da praia; mar de S. Pedro de Moel; mar de S. Martinho do Porto; mar de Salir, mar do Vale Furado. A minha mãe olhava para aquele enfiamento, insistindo que, na impossibilidade de aprender corte e costura, deveria, pelo menos, aprender a cerzir e a remendar. Não há dia em que, cerzindo-os ou remendando-os, evitando que se escarçem na minha monotonia, não bendiga o esforço da minha mãe.

*T.S. Eliot, The Waste Land

Da vivo tronco aperto (Jan Dismas Zelenka)

Meninas


O azereiro é uma lindíssima planta e agora também um novíssimo blogue que distinguiu o A&OD, colocando-o na sua lista de blogues.
Com os meus agradecimentos ao
A. Moura Pinto e - apesar da minha verdura nisto - com as minhas boas vindas, deixo-lhe em jeito de obrigada um lindíssimo poema de Natércia Freire:

As meninas são todas como eu:
A guardar astros que serão bordados,
A recolher os olhos deslumbrados
Depois de uma viagem pelo Céu.


E vestem blusas para esperar a tarde
Que há-de surgir ao fundo da vereda
E crispam dedos de sonhar a seda
Que a tarde trouxe e na cantiga arde.


Fincam braços no chão do parapeito
E debruçam o corpo para a lua
E temem vultos negros pela rua
E sentem fogo a iluminar-lhe o peito.


E deitam-se nas camas encantadas
E olham luar correndo nas campinas
E são felizes porque são meninas
E porque a vida as vai fazer mudadas.


Natércia Freire, in Antologia Poética

De olhos bem abertos

Soares dos Reis, o desterrado

A MJ deixou ali em baixo, no escurinho da caixa de mensagens, estas belíssimas palavras de Walt Whitman:

Women sit, or move to and fro-some old, some young;The young are beautiful-but the old are more beautiful than the young.

Lendo-as, lembrei-me de um dos fragmentos de Safo, com tradução e arranjos de Eugénio de Andrade:

O que é belo, é belo de ver, e basta.
Mas o que é bom, subitamente será belo.

Compreendi-te

Ora nem mais: Manela, filha, cuidado com a amarguinha!

terça-feira, 18 de Novembro de 2008

Estratosfera

George Platt Lyne

Esta manhã, nos intervalos da papelada, para desopilar, escrevi dois pequenos textos que achava estarem aptos ao vosso olhar e consideração. Todavia, por obra e graça da minha inépcia informática, perdi-os. Quando essas coisas me acontecem – e essas coisas acontecem-me -, fico sempre, meia tonta e meia incrédula, a olhar para os ficheiros na vã esperança de que seja só uma partida e que, subitamente, um deles me sorria e me devolva os textos perdidos. Mas os meus ficheiros não são, nem estão para brincadeiras.

Quando era miúda e me desaparecia qualquer coisa: chorava. Depois de chorar um bom bocado, ia dar mais uma volta e as coisas apareciam. Criei então a convicção de que, chorando, os problemas por si mesmo se resolveriam. Fui crescendo sem problemas de maior e sem razões para grandes choradeiras, mas ainda na convicção de que as minhas lágrimas teriam um qualquer efeito curativo. Assim a modos que Santinha da Ladeira. Chegada à Faculdade chegaram os primeiros grandes bicos de obra. Não imaginam o lagoeiro. Obstinada – forma airosa de dizer que sou teimosa como um pequeno asno -, a coisa ainda durou, pelo menos dois anos lectivos, até que me capacitei que os meus poderes lacrimosos se haviam esgotado na infância e que o melhor mesmo era começar a pregar noutra freguesia. Foi então que entrei para o Cénico.

Cara sposa, sposa cara

O primeiro livro

Comprei-o na livraria de Serralves. Já tinha aqui lido sobre ele e, por isso, quando o vi não tive que sopesar a decisão. Foi agarrá-lo e levá-lo para caixa, alegando o justo e generoso propósito de o oferecer à minha afilhada: uma prenda atrasada de pão-por-Deus.
É um livro esconso a lembrar águas-furtadas, que ficou num total desacerto dentro do saco de papel. Já no prado, de olhos postos na barrosã, li-o de uma ponta à outra e lambuzei-me com os seus desenhos. Uma autêntica delícia. Desde então, tenho-o visto todos os dias e cresce em mim uma vergonhosa vontade de sonegar o livro à L. e de, finalmente, iniciar a minha estante de livros infantis.

Juan Muñoz

Serralves não estava em festa mas para lá caminhava e, por isso, decidimos chegar cedinho, aproveitando a borla de domingo. Entradas no átrio, olhámo-los de soslaio, como se olha, gulosamente, um apetitoso brigadeiro. Levantámos os bilhetes, comprámos o jornal, pendurámos as trouxas no bengaleiro e, retardando o prazer, descemos até à cafetaria onde assistimos ao desacerto taralhouco e ineficaz das duas belas empregadas: duas joaninhas completamente baralhadas. De estômago forrado e gordas lambidas, subimos de novo até ao átrio e decidimos, então, ficar basbaques, de pescoço esticado para aqueles dois homens suspensos. Respirámos fundo e embrenhámo-nos na pequena multidão de pequenos homens sorridentes que nos esperava na primeira sala: um delírio para miúdos e graúdos. Perdemo-nos pelo meio deles, como se nos perdêssemos num labirinto e fomos percebendo que havia naquela exposição uma teatralidade que recorria à nossa cumplicidade. Ficámos rendidas. Depois foi só um cavalgar de surpresas e prazer. Toda a exposição mostra à saciedade que ele é (era) um artista plástico muitíssimo heterogéneo, mas sobretudo que deveria ser um homem profundamente belo e poético e com belíssimo sentido de humor. Juan Muñoz morreu há meia dúzia de anos com apenas 48 anos. E essa foi uma das surpresas da exposição. As outras devastavam-nos os sentidos. Demorámo-nos longamente. Voltámos e tornámos a voltar às salas já visitadas. E se bem que o jardim da cordoaria e as imagens vistas aqui e ali já nos haviam avisado, ainda assim a surpresa foi enorme: uma diversidade estonteante e uma teatralidade contagiante. O sorriso conviveu com o espanto e saímos do museu para os jardins de Serralves suspensas nos bonecos de Juan Muñoz.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Liebst du mich nicht mehr?

Coisa mais preciosa


Vou pagá-lo caro. Estou pejada de trabalho. Não fossem os bilhetes já comprados e teria dado sem efeito o fim-de-semana. Mas a compra dos bilhetes, a reserva do hotel e a belíssima companhia apalavrada e assim rumámos à Invicta. Conheço-a mal, dando-me conta que acabo de gastar, desnecessariamente, um eufemismo. Cada ida ao Porto é uma majestosa aventura no desconhecido, passeando-me pelos mesmos sítios que os turistas: há uns meses atrás, com um grupo de alemães, celebrei o meu aniversário na Ribeira e, desta feita, demorei-me, com um casal de italianos, pela Cadeia da Relação. Nesta, fiquei profundamente surpreendida quer pela beleza e imponência do edifício, quer pela história que alberga e que me relembrou que, há século e meio atrás, se definia um criminoso pelo perímetro do crânio ou pelo formato do queixo e me ensinou que, consoante a abastança, assim estaria destinada ao prevaricador uma enxovia salubre ou insalubre, com janela ou sem janela, de chão de madeira ou de chão de pedra. Saimos em liberdade, passando de raspão pelo Jardim da Cordoaria e fazendo uma visita relâmpago ao Soares dos Reis. Terminámos o sábado com um lauto jantar no Carteiro (obrigada Z. pela saborosa dica!), um restaurantezinho pequenino, mas muito agradável a caminho da Foz. No domingo, inaugurámos a manhã em Serralves e abrimos o apetite para um fresquíssimo robalinho do mar em Matosinhos (obrigada T, pelos ensinamentos e pelas boas recordações) e entrámos tarde dentro pelo lindíssimo Teatro Nacional de S. João, elogiando o garbo das fardas dos arrumadores da sala. Cheguei tarde a Lisboa, com um grãozinho de nostalgia: é que há meses atrás fiz por lá um amigo que me anda perdido e coisa mais preciosa no mundo não há.
Liebst du mich nicht mehr?

O Mercador de Veneza

A peça ganha luz, cor e riso com a entrada das mulheres.
Até à sua entrada, ainda que travestidas de homens, a peça é soturna, escura, até mesmo cansativa, arrastada, sem ritmo. Depois elas entram e a peça ganha brilho. Ilumina-se. Soltam-se as primeiras gargalhadas.
Podia agora elogiar o esforço e o génio da encenação ou do desenho de luzes, não fosse eu crer que, naquele particular, estas se limitaram a render-se a uma incontornável inevitabilidade: je declare avec Aragon, la femme est l’avenir de l’homme.
Mas não vão estas palavras fazer crer que a encenação é imprestável, sempre direi que, pese embora já tenha visto melhor de Ricardo Pais, gostei bastante desta versão livre do Mercador, sendo absolutamente invencível a beleza das palavras de Shakespeare. Dito isto, acrescento que a cenografia, o desenho de luzes e a música são igualmente bons e que os figurinos teriam nota máxima não fosse o exercício do óbvio: aquela estrelinha de David sobre o moderno blazer traduziu-se, em mim, num imenso e contínuo ruído absolutamente excrescente. Escrevo isto e penso que talvez tenha sido essa a finalidade: criar o desequilibrio, quebrar a força do texto anti-semita remetendo-nos para o horror. Talvez.
No domínio dos desempenhos a palavra chave foi descanso. Um descanso de tanto equilíbrio. Apreciei, no entanto, a presença luminosa e tenrinha da Sara Carinhas e da vetustez sabidona do António Durães. Espanto mesmo foi para o Albano Jerónimo que acho que só conhecia de o ver, de raspão, em novelas e que se mostrou senhor de uma presença de palco incontornável e de um vozeirão de baixo-barítono que muito apreciei. Uma última palavrinha para algo que me impressionou muitíssimo: o manual de leitura distribuído gratuitamente - e aqui disponível em PDF - que é de uma qualidade excepcional, a fazer corar os programinhas enjoados, a 7 euros, do S. Carlos.
Oxalá me engane, mas Ricardo Pais vai fazer muita falta ao S. João.


De olhos bem fechados

George Platt Lyne

Olhava para a entrevista a Fernanda Serrano e o que verdadeiramente me impressionava eram os seus olhos minados de rugas. Demasiadas rugas para os seus 35 anos, afirmei, perante o ar pasmado das palavras da capa. Horas mais tarde, olhava para a biografia de António Durães e, conhecendo o seu ar envelhecido, surpreendia-me que apenas tivesse nascido em 61. Uns míseros 4 anos à minha frente. E, num repente, juntando aquelas duas constatações do dia dei-me conta que aquele poderia ser um domingo de terrível e incontornável claridade que não permitisse nem aos olhos, nem ao corpo, negarem a idade.
Levantei-me e fui à casa de banho, evitando, com zeloso cuidado, o espelho.

Desenganos

- Como é mesmo? Amor e outras loucuras?
- Não. Amor e outros desastres.
- Ah …

Trinta e dois aninhos, não mais!

To whom it may concern (ganda pinta, em estrangeiro e tudo que é para disfarçar melhor que, se é certo que tu és um livro aberto, a bem dizer esta bem que pode ser uma matéria vedada à subscrição pública):

e agora a côr-de-rosa choque: parabéns a ti!

E depois da bonecrada e do malmequer amarelinho (ou será uma gerbera? ou até mesmo um girassol?), podia deixar-te com um festivo fogo de artíficio ou uma marcha alegre e triunfante ou, até mesmo, o Stevie Wonder a berrar, mas prefiro pôr-te na companhia de um jeitosão e de um modesto alegro vivaldiano, cheio de estrelas cintilantes: tudo, tudo para desejar um dia muito feliz e um maravilhoso novo ano!

sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

Embalo

Pompom querido e amigo, já correu bem e agora ainda vai correr melhor. Para uma franca e rápida convalescença um embalo energético:

Lisboa é de todos! (2)

Termina hoje: não se esqueçam de votar em http://www.cm-lisboa.pt/op. Não é todos os dias que podemos participar nas decisões da nossa cidade

quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Fucsia

A esta hora, está a arca do Pessoa nas mãos de algum lapardeiro que, contra um cheque de 100 mil euros, a levou para casa com o fito de a encher de garatujas que, no contacto, ganharão mérito e reconhecimento. E pese embora me tenha inquietado esta coisa do leilão, a que, provavelmente, faltou a Casa-Museu por manifesta falta de verbas, o dia de hoje foi marcado por ela que estranhamente não ia de fucsia. Se alguém lhe tivesse oferecido a arca do Pessoa, ela tê-la-ia colocado na salinha de costura, junto à máquina, e enchê-la-ia de bordados, rendas e retalhos de seda, guipur e organza. Aliás e em abono da verdade, ela nem saberia da existência do Pessoa. Ela só lia a Burda, concedendo, volta e meia, os seus glaucos olhos à revista do Chefe Silva. E foi, era, é uma das pessoas mais bonitas da minha vida. Dava-me guarida, cama, comida e muita atenção, verão fora, carnaval dentro. Convenceu os 9 anos da S. a dar-me uma das suas duas Nancys e esforçou-se em contrariar a natureza ensinando-me a fazer as melhores lulas recheadas do universo e os mais fantásticos rissóis do mundo. Pintava o cabelo de preto e vestia impecavelmente de fucsia, cerise ou vermelho sangue-de-boi. Tinha sempre uma palavra de incentivo, de reforço da auto-estima alheia e era profundamente generosa e amiga. Nos últimos anos, enquanto ainda lograva falar, deixou cair o meu nome e tratava-me carinhosamente por "minha menina". Da última vez que estivemos juntas deu-me malmequeres e sardinheiras para plantar nas minhas varandas. Para ela não quero o mais belo requiem, nem a mais inspirada missa solene, mas uma oratória de Händel por inteiro e na impossibilidade este inspiradíssimo pedaço:

quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Revelações

Jonathan Monk, If you can't paint, hire someone who can

No domingo, o tarot da Maya elucidava-me que a semana iria estar sob a boa influência da Papisa e que, consequentemente, estariam reservadas para a minha pessoa - e todos os geminianos do mundo - uma série de revelações inesperadas.

Ainda só chegámos a 4ª e:

A) na 2ª, a CML revelou-me que a taxa de esgotos, a ser paga numa só prestação e de imediato, era de 175 euros, acrescida de 1 euro para a semana de mora;

B) na 3ª, as Finanças adocicaram-me a boca revelando-me que aquela declaração de IVA - a zeros - que não entreguei em Agosto me rendeu uma coima de 148 euros;

C) hoje, o simpatiquíssimo e competentíssimo bate-chapas (A., thanks! Uma joiinha! Se alguém precisar de um mecânico …) revelou-me que aquela porradinha sem jeito nenhum
naquela colunazita inconveniente que se pespegou na minha cuidadosa marcha-atrás havia orçado em 170 euros.

Ora, portanto, na impossibilidade de me encerrar, bem que eu encerrava a semana e, de caminho, encaixotava a Maya.

terça-feira, 11 de Novembro de 2008

Provas de fogo

"Hajam vista os prazeres da vida, que de amarguras andamos nós saciados!" exclamou, algures entre o século XIX e o início do XX, Ramalho Ortigão e eu lia e pensava em ti que tens, hoje, mais uma prova de lume brando, como se a tua vida fosse um game boy pejado de obstáculos a serem transpostos sob pena de lerpares. Pensava em ti e neste teu destino, lamentando não poderes ir, connosco, até Porto, a fim de festejar alguns dos prazeres desta nossa vida. Mas como, por ora, ainda estás naquele nível do jogo em que os obstáculos não te dão tréguas fica esta minha inutilidade espelhada nestas breves palavras e na música que, hélàs, se não nos apazigua, fortalece-nos a alma:

Dardejando

Dois bloggers, que muito prezo, elegeram-no. Um deles disse mesmo que o seu blogue era uma permanente surpresa. Confesso que foi mercê desses destaques que passei a ir até lá com regularidade e sobretudo passei a fazer o que aquele blogue precisa que se faça: demorar os olhos e mergulhar os sentidos. Não é um blogue, como o A&OD, que se vê e lê de raspão. O imagens com texto exige tempo e sobretudo sentidos bem despertos e alertas.
Também eu, se fosse agora a votação, o dardejava: o imagens com textos é, sem dúvida, um blogue inteligentemente surpreendente, quer pelas sempre belíssimas imagens, quer pelos suculentos textos. Por essas razões e todas as outras, estou muitíssimo feliz por ver o A&OD na lista das suas ligações, e, como é hábito, agradeço com as palavrinhas dos outros.
Para o jj amarante, pois, com o meu muito obrigada:

TRAZ-ME O GIRASSOL para que eu o transplante
para o meu terreno mordido pelo ar salgado,
e mostre todo o dia ao céu azul espelhante
a ansiedade do seu rosto amarelado.

Tendem para a claridade as coisas escuras,
esgotam-se os corpos num fluir
de tintas: e estas em música. Esvair
é assim a ventura das venturas.

Traz-me tu a planta que conduz
ao lugar onde surge a loura transparência
evapore a vida qual essência;
traz-me o girassol enlouquecido de luz.


Eugenio Montale, in Poesia.

Quase em português

"Se discorrer sobre um problema difícil fosse como carregar pesos, caso em que muitos cavalos podem levar mais sacos de trigo do que um só cavalo, eu concordaria que muitos discursos fariam mais que um só; mas o discorrer é como o correr, e não como carregar, e um cavalo berbere sozinho correrá mais que cem cavalos frísios."
Galileu Galilei, citado por Italo Calvino em Seis propostas para o próximo milénio.

Bem a propósito, muito a propósito, PARABÉNS ao Lutz!
5 anos a correr como um cavalo berbere, 5 anos a blogar, em português, com sua excelência é motivo não só para parabentear, como sobretudo para agradecer: Obrigada, Lutz!

segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Lisboa é de todos!


A MJ, amiga e entusiasta leitora do A&OD, enviou-me esta manhã um email a dar-me conta que um dos projectos por si apresentados, no âmbito do Orçamento Participativo, foi seleccionado pela Câmara Municipal de Lisboa para a 2ª fase.


Trata-se da Requalificação Integrada do Largo de Santa Cruz do Castelo, Largo do Chão do Loureiro, Largo dos Loios, Largo do Contador Mor na colina do Castelo.


Antes do mais, muitos parabéns, MJ !
Logo, logo de seguida, obrigada por me dares a conhecer esta coisa de termos uma palavrinha a dizer que me escapava por completo.

Conta-me ainda a MJ que de todos os projectos seleccionados para esta 2ª fase só serão aprovados/executados os mais votados. E quem vota? Pois justamente todos nós que vivemos, trabalhamos ou, pura e simplesmente, amamos a menina e moça.


Para tanto, basta ir até a http://www.cm-lisboa.pt/op.
Há que fazer um registo que dura apenas 1 minuto (sendo que quem já se registou na 1ª fase, não necessita de voltar a fazê-lo) e depois é só votar nos 3 projectos que mais titilem.
As votações só estão abertas até 14 de Novembro.

Também o Amigos do Botânico fazem eco do processo, dando a conhecer o seu projecto, mas sinceramente, agora apetece-me mesmo fazer campanha pela minha novel amiga e pedir que quem puder ou quiser (subitamente detectei aqui o ceguinho do metro ...) vá até lá e vote no seu projecto.
Gracias ou como diria a Hermínia, tankiu-verimatcho.

Fracturas

Alexander Calder, Triangles et Spirales

Foi um jantar animadíssimo, sendo certo que o ambiente chegou ao rubro quando o grande tema entrou em debate. Se até aí o rafeiro do Obama, as tontices da Rainha de Espanha, as saliências atoleimadas do Manuel Pinho e os silêncios e dislates da Manuela geraram, mais aqui, mais ali, um quase absoluto consenso, num ápice, a mesa dos 11 convivas que festejavam o aniversário da C. transformou-se num babilónico prós e contras, sem o imprescindível e sopeiral contributo da Fátima Campos Ferreira. De um lado, a ala conservadora, do outro, a ala moderada, sendo certo que nenhum dos presentes revelou ser adepto da ala radical.

Ora, tudo começou quando a A. confessou que andava a tratar de aniquilar o buço através de depilação a laser e que, surpresa das surpresas, cruzava-se mais com cavalheiros do que com senhoras. A ala conservadora saiu, de imediato, a terreiro para mostrar os mais inequívocos sinais de profunda e efectiva agonia: nada pior do que ver um homem transformado em galinha de aviário: pernas, peito e braços depenados. Atalhou a facção moderada que a depilação masculina era mui avisada para o tipo edredão, vulgo Tony Ramos. Que nada, gesticulava a ala conservadora, um homem peludinho tem não só muita graça, como um certo charme, bem bastando ao género masculino o quase exclusivo da alopecia. Os cavalheiros reservados quanto à sua natureza pilosa e sobejamente entalados entre o entusiasmo das duas alas femininas suspiravam para que não pegasse a moda de tirar a barba com cera quente.

E assim seguia a discussão, elevada e profusamente decorada com relatos históricos de encontros imediatos com homens depenados, quase todos eles, curiosamente, no ginásio, quando nos apercebemos que os donos do restaurante estavam não pelos pêlos, mas pelos cabelos, a quase suplicar que fossemos discutir o tema fracturante para outra freguesia.

A música

Este foi um fim-de-semana cheio de belíssimas dádivas.

O Al, meu mui terno e querido amigo, desde lá longe, na cidade onde eu gostaria de viver, deixou-nos esta maravilhosa cantata, demasiado intensa para ficar encafuada na caixa de comentários. Obrigada, Al:

A música derrama-se
no corpo terroso
da palavra. Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.


A música traz na bagagem
a memória do sangue; o caminho
do sol: Lume e cume
de palavras polidas.


A música rompe um rio de lava
por si mesmo criado. Lágrima
endurecida
onde cabem o mar
e a morte.

Casimiro de Brito, in "Canto Adolescente"

Os 9 de Novembro da Alemanha

Em Novembro de 2004, andava de costas viradas para a blogosfera e perdi os dois excelentes postes do Lutz que podem ser lidos aqui, num exercício divertido de clicar ora numa letrinha ora noutra. A minha vasta ignorância impedia-me de saber da coincidência dos 9 de Novembro, sendo certo que o que mais me delicia é este emocionante relato, tão bem escrito em português.

domingo, 9 de Novembro de 2008

Pirateando

O misterioso pirata vermelho, homem de bom gosto, que se enamorou da minha preciosa e encantadora Antuérpia, deixou-nos, por entre as horas suaves deste fim-de-semana, estas duas eloquências - por sinal de uma das minhas óperas preferidas de Verdi - e que, como é óbvio e senza vanità, teria de ser partilhado convosco. Tudo num domingo em que, de partida para a minha semanal viagem pelo oeste, vos trago à memória a resposta de Olga Prats - que ontem entrou na carreira septuagenária - quando lhe perguntaram o que é a música:
"A respiração. A vida".
Bom domingo!




sábado, 8 de Novembro de 2008

Parabéns queriduxinha!

Nada como a Callas da Callas que é como quem escreve, a nata da nata, para nos pôr a festejar, à grande e à portuguesa, o aniversário da minha querida amiguinha C, com um beijinho de parabéns e um abraço muito apertadinho:

Do encanto

Foi um encantador concerto aquele a que assisti ontem, ao final da tarde na Gulbenkian, óptimo para encerrar uma semana particulamente atribulada e cheia de tensões, algumas bem desnecessárias: viver não custa, é preciso é saber ...
Tudo começou com L'Ascension do cinestésico Messiaen, a deixar-me profundamente curiosa sobre quais as cores que a composição lhe aportaria. Pareceu-me toda ela cheia de degradés, diria em roxos e violácios, mas, claro está, esta é uma mera impressão de uma empírica e desastrada amadora. Depois do intervalo, veio a jóia da noite: a lindíssima 4ª sinfonia de Mahler, magistralmente conduzida pela maestrina Simone Young que, soltando-se do espartilho da batuta, desenhou com os braços e sobretudo com as mãos um muito sensual bailado. Dividi, no entanto, a minha atenção com o louríssimo e mui jovem primeiro violino que tocou cheio de alma, sempre a levantar voo da cadeira. No 4º andamento, apareceu uma muito bonita e elegante Miah Persson que cantou de forma suave e delicada, como se fosse uma criança frágil e de tenra idade, tão diferente do forte e determinado canto de Christinne Schafer que se pode ouvir no vídeo que se segue. Foi pois um surpreendente e relaxante final de tarde - um descanso, um descanso! - que se espraiou nas deliciosas lulinhas recheadas da Srª Dª Regina, no sempre modesto, mas excelente, Oh Lacerda.

sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Da expectativa

Às horas a que escrevo está a decorrer a reunião. Quero acreditar que escolhemos a mulher que pode resolver e que vai conseguir dobrar o homem. A ver vamos. Para ti, minha bela amiga, sweeter than roses, hoje especialmente um hinozinho de beleza:

Foi um ar que se lhe deu

Em Outubro, eu e uma outra Colega completámos 20 anos (ui!) de inscrição na nossa Ordem profissional.
Como a malta anda sempre à cata de pretextos, ontem resolvemos juntarmo-nos, num jantarinho, alegadamente para comemorar o evento. Lá para o final do jantar uma das convivas sacou de duas pequeninas placas que rezavam assim: "Prefere falar com o homem responsável ou com a mulher que pode resolver?"
Os cavalheiros não acharam graça nenhuma e nem sequer comentaram. As miúdas acharam uma graça desmedida, até porque, como diria diria a minha querida amiga Antuérpia: se non è vero è ben trovato.

De sorriso escancarado para o écran


"Desculpe se aliterei": um turbilhão delicioso de piscadelas de olhos: ainda mal refeitos de uma, já se sucede outra e mais outra e mais outra. Uma excepcionalíssima desbunda que nos faz sentir, a cada duas palavras, seus eternos e dedicados cúmplices. Uma prodigiosa cabecinha, uma abençoada mão lesta e solta para o encadeamento encantatório de palavrinhas, não desprezando, óbvio, a bonecrada.
É é: isto é justamente o que parece: um descarado, rasgado e merecidíssimo elogio.
Quem nunca se demorou pelo Bandeira ao Vento, absolutamente siderado e com vontade de nunca mais escrever uma palavrinha no blogue, atire a primeira pedra.
Para o desassossegado e desensonado JB, queria dar-lhe um bocadinho da 4ª de Mahler que vou ouvir mais logo, mas não encontrei nada a jeito e de jeito. Deparei-me sim com este exercício lunático que pode ser que agrade:

Letra Pequena

Eu sou fã incondicional dos escritos da Rita Pimenta e tenho imensas saudades da crónica que ela tinha no saudoso mil folhas. Gosto imenso de livros infantis e divirto-me muito a escolhê-los para os meus amiguinhos pequeninos. Com raras e honrosas excepções em que compro uma roupinha ou um brinquedo, a minha usual prenda para os mais pequenos são livros. Fiquei pois absolutamente deliciada com este maravilhoso blogue com tantas e enriquecedoras pistas para me encantar e brindar os meus amiguinhos.

quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

O apadrinhamento

Georges Segal, Open door

Leio, no Público, que, até ao final do ano, vai ser criada uma figura, a meio caminho da tutela e da adopção, denominada de apadrinhamento e que permitirá tirar crianças, sem pais biológicos ou adoptivos, de lares e internatos, entregando-as a famílias que as acolham no seu seio.
Confesso que a denominação me causa desconforto. Traz-me à ideia, o tempo da outra senhora e aquelas situações correntes das madrinhas que recolhiam umas alminhas pobres e desvalidas e que, evidentemente, a troco de cama e comida e, em certos casos, algum dinheirito de bolso, eram tratadas como verdadeiras criadas. Mas admito que isto é mesmo só uma reacção alérgica.
No fundo - e é no fundo que medidas destas são importantes - sabendo, como se sabe, que os processos de adopção são cancros judiciais que resistem infindáveis anos até que a criança saia do internato e seja adoptada, parece-me, para já, meritória a criação de um procedimento célere (espera-se) que permita colocar as crianças junto de famílias que as queiram acolher e lhes possam dar protecção e carinho.
100% apologista da adopção por casais homossexuais, aguardo, agora, com uma contida curiosidade, a publicação da lei com vista a topar a arrumação que o legislador deu ou dará às uniões de facto.

Para amenizar o desalento

Acho uma graça desmedida ao noticiário matinal da antena 2. Nunca me informam sobre as oscilações do PSI20 mas dão-me sempre a conhecer coisas tão vitais como o aniversário da Sophia e as manobras da Orquestra de Jazz de Matosinhos. Imaginem que esta última, inicia, hoje, um programa de visitas a prisões com o intuito de levar a música, mormente o jazz, até esses recantos de desolação. Curiosa, googlei na mira de encontrar mais algum apontamento sobre o que me parece ser, para além de meritório, um interessantíssimo projecto. Mas, seguramente por inabilidade, não saquei nada sobre a relevante matéria. Bom, violando uma das regras básicas do jornalismo, isto é, reproduzindo de ouvido e sem confirmar na fonte, cá fica a indicação de que, se não estava a sonhar, ouvi esta manhã, na Antena 2 que a OJM e o jazz estão, nestes dias de Novembro, de visita ao cárcere.

Dos amigos

Ontem tive um jantar delicioso, não só porque o rolo de carne estava excelente e o vinho era muito bom, como porque, com o aveludar dos anos, percebemos o quão importante são os amigos que ficam. Os amigos que resistem a todos os vendavais e tempestadas e que, muito simplesmente, nos fazem muito felizes.

As pessoas sensíveis

Parabéns Sophia!
No meio deste torvelinho mitigado pelo sucesso de Obama, sinto este seu belo poema profundamente actual:
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"

Ó vendilhões do tempo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

Long time no see?

Não tarda nada e já lá vão 30 dias. E a malta que é mais águias interroga-se: See?
Alguém o viu?
Alguém sabe dizer por onde ele anda que, aos nossos bons olhos, se sumiu?

quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Hope

Estas coisas dão-me cabo dos nervos e bastou-me, cerca da meia-noite, ver o McCain à frente em alguns Estados para me desforrar num pacote de bolachas de chocolate, seguido de um soninho dos justos. Hoje, pela manhã, fiz o que nunca tinha feito: abri o televisor e, por sorte, apanhei parte do discurso de McCain. Fiquei descansada e, sobretudo, cresceu em mim a consideração que não havia tido antes pelo senhor. Já tranquilita, andei feliz pelos blogues das minhas predilecções e se é certo que não me surpreendi, sorri bastas vezes. Estava nisto, sorrisos rasgados para o écran, quando decidi reforçar a dose de cafeína. Junto à máquina do café, traçou-se-me uma rugazita na testa: "pois, pois … Vamos ver se não o limpam…" Passados os momentos iniciais, com a água geladita a escorrer por mim a baixo, não deixei de cogitar que, efectivamente, ele há sempre, mais do que umas alegrias de cemitério, quem tenha muito mau perder.

terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Um inferno

Maria Lassing, Sem título (detalhe)

Gostava de, por aqui, só dar nota de coisas boas. Gostava de, à imagem do que sucedeu a semana passada, poder trazer aqui um vídeo deslumbrante de um bailado inesquecível. Gostava também de dizer que a Olga Roriz não me decepcionou. Infelizmente, não foi assim e na 6ª feira apanhei uma seca do tamanho de um camião tir: um trabalho cheio de piscar de olhos descarados a Pina Bausch, uma selecção musical muito discutível de óbvia e, por vezes, a roçar o piroso, soluções cénicas embaraçantes, uma narrativa extensíssima sem que se encontrasse o fim do fio ou até mesmo o enrolo da meada. Quando finalmente acabou estava profundamente entediada sem vontade sequer de bater palmas, coisa rara e nunca vista em mim. O público presente não foi da minha opinião e aplaudiu de pé, dando comigo a perguntar se o faziam por terem gostado ou simplesmente porque era um trabalho da Olga Roriz. Enfim, também se pode ter dado o caso de, volvidas duas horas sem intervalo, se terem levantado para desentorpecer as pernas.

He got rhythm


Em Janeiro, congratulava-me com a candidatura de Obama, trazendo à colação o 24 hours, aliando-a à transposição da ficção para a realidade. À medida que os meses foram passando, deixou de ser uma coisa meramente intuitiva, de pele, para passar a ser matéria de convicção e de um sem margem para dúvidas.

Ainda expectante - tal como diz a minha amiga C., um país que elege por duas vezes George W. Bush não é bom para se fiar e cantar vitória antes dela estar arrecadada -, torço para que a festa seja democrata e que a ficção vire mesmo realidade. Oxalá!

E mais do que para Barack Obama - embora, hoje, seja ele o homem do ritmo -, para todos os americanos que vão às urnas apostando na mudança, uma desbunda curtinha de um dos mais negros compositores brancos americanos: Gershwin por ele mesmo, trinta e cinco segundos imperdíveis.


Adenda: com o meu obrigadíssimo para a Helena que isto estava pejado de erros ortográficos. Com as minhas desculpas para os leitores que por aqui foram passando e que foram tropeçando neles ...

Saídas de emergência



Pedro Mexia, in Estado Civil

segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

No comboio descendente


Pai ferroviário sem carro e com os tostões contados, durante anos, o meu quase exclusivo transporte foi o comboio. Quase exclusivo, porque sempre havia, de vez em quando, umas carreiras dos Claras ou da Ribatejana até à praia, denominação corrente da Nazaré. Todavia, o grosso da coluna fazia-se na borla do comboio: iamos à praia de comboio, iamos às compras de comboio, iamos aos médicos de comboio, visitas ao meu pai, em Caxias ... de comboio. Chegada à capital, de comboio e nos meus menineiros 17 anos, fui viver para a estação de Campolide justamente aquela que deu nome e imagem a um dos meus discos preferidos de SG: durante o dia, um virote de comboios; durante a noite, dormitório de tantos outros, tudo emoldurado pelo vetusto aqueduto e sob o olhar maganão do Bairro da Liberdade.
Volto em breve a essa estação onde fui profundamente feliz. Por ora, no comboio descendente, limito-me a fazer lastro a este esplêndido elixir.

Lover come back to me



A swingadíssima versão que anda a passear pelos cantinhos da minha carripana é a de Loverly da Cassandra Wilson (obrigada Dioguinho querido): estupendo disco.
Para um blogue que, aqui d'el rey, adora música, imprescindível esta versão da inestimável Billie:

The sky is blue
The night is cold
The moon is new
But love is old

Dádiva


Com o meu muito obrigada ao Miguel Marujo por ter incluído o A&OD na belíssima companhia dos "Muito cá do Bairro".

Um dia tão feliz.
O nevoeiro levantou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os beija-flores pairavam sobre a madressilva.
Não havia na terra coisa que eu quisesse ter.
Não conhecia ninguém digno da minha inveja.
O que houvera de mal, já tinha esquecido.
Não tinha vergonha de me lembrar que tinha sido quem fôra.
No meu corpo nada doía.
Endireitando as costas, via as velas e o mar azul.

Czeslaw Milosz, in Alguns Gostam de Poesia

Dourando

Pela mão da angela (ou será pelo bonito rabo de cavalo da angela?), um lindíssimo, poético e imperdível passeio pelo Douro.

A mentira branca

Robert Mapplethorpe



A experiência pessoal ensina-nos que não é possível dizer sempre a verdade, nem na vida privada, nem na vida pública, pela simples razão de que há sempre aspectos da verdade que não favorecem as nossas opiniões ou projectos.


A citação do JPC demanda a leitura integral do post que é muitíssimo bom, alertando-se que o mesmo não versa, como se possa pensar - quer a partir da citação descontextualizada, quer a partir do título deste poste -, sobre a mentira social, mas sim sobre a mentira na política.

Dito isto, sai declaração de interesses: eu uso a mentira branca. Creio que não abuso, nem deixo de abusar. Pura e simplesmente uso-a quando, atentas as circunstâncias e dentro da minha idiossincrasia, não posso deixar de a usar. Na maior parte das vezes, uso-a para não estragar o entusiasmo, a felicidade do meu interlocutor. É uma atitude criticável, eu sei. Mas é assim desde sempre. Sou incapaz de, na maior das cruezas e frontalidades, dizer, quando me oferecem um mamarracho, que é abominável. Pura e simplesmente engulo a sinceridade e digo, na mais abenegada e falsa das convicções, que é muito bonito e que gosto muito.
Há uns tempos fiz uns favores à minha depiladora. Chegados ao Natal ela ofereceu-me um jarrão de louça pintado à mão, por uma sua amiga, em guisa de CDS-PP: muitos azuis e dourados. A senhora deliciada a oferecer-me aquela inenarrável piroseira e eu a agradecer penhoradamente, asseverando que não só gostava muito da prenda, como ela ficaria muito bem na minha casa. Oro, desde então, para que a Senhora não volte a ter novo gesto de generosidade e sobretudo não lhe ocorra fazer um domicílio.

Há semanas ao discorrer sobre esta minha criticável indiossincrasia fui cilindrada por uma crítica que, ainda que veladamente, me dizia que a minha atitude era de uma evidentíssima hipocrisia e de um manifesto cinismo. Embora à toa e tentando justificar-me, acabei a admitir que provavelmente esta minha maneira de ser atesta uma execrável falha de carácter: talvez eu não necessitasse de ser assim, se soubesse ser de outra maneira.

Contudo e nem a propósito, passados alguns dias sobre aquele confronto, apanhei o meu interlocutor a mentir. Era também uma mentira branca que visava exclusivamente não me fazer sofrer. Cogitei então, sem lho dizer, que não há volta a dar-lhe: mais aqui, mais ali, todos nós mentimos ainda que alvamente.

E, na verdade, até estou em crer que, quem, armado em probo, nunca mente é um evidentíssimo verdadeiro animal.

domingo, 2 de Novembro de 2008

Pão-por-Deus



Pão-por-Deus
à merengola,

saco cheio,
vou-me embora

Em petiza, no dia 1º de Novembro, dia de todos os santos, partia, manhã cedo, em bando e de saca de pano à tiracolo, a pedir o pão-por-deus. Voltávamos a casa à hora de almoço com a saca cheia de nozes, figos secos, castanhas, amendôas, passas, maçãs e passávamos a semana a comilhar aquelas oferendas. Ontem, na minha aldeia que já passou a vila, quando lá cheguei, pela manhã, carregada de flores para alindar a campa dos meus avós, andavam bandos de catraios pelas ruas com sacas de pano na mão. Fiquei bestialmente surpreendida. Nestes tempos do descartável e da importação de estranhíssimos rituais, muito gostei de ver os meninos da minha ex-aldeia ao pão-por-deus, de saca de pano na mão.

De pequenino

O meu priminho T., nos seus 14 meses, ainda só diz uma espécie de olá: Ouuuulá!
No mais não lhe sacamos qualquer outra palavra, sendo certo que percebe tudo, rigorosamente tudo. Já andar, anda por tudo quanto é sítio, caindo e caindo e caindo e voltando a cair. Olhando para a sua testita pejadinha de nódoas negras e para a sua determinação em levantar-se e prosseguir a caminhada que meio metro à frente termina em nova queda, ocorre-me o refrão da cantiga que conheço na voz da Bethânia e do qual, ao longo da vida, muito me tenho socorrido: reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

sábado, 1 de Novembro de 2008

Quando eu morrer batam em latas



Para o meu doce e terno avô, olhos de avelã, para a minha companheirona avó, braços lindos, para a diversão em pessoa que me contam que era o tiozinho, para a refilice amorosa da tia Xixina, para o J. que me deixou a conversar sozinha, não esquecendo o talento e a irreverência do Zeca, as crónicas semanais do Montalbán, a escrita escorreita do Cardoso Pires, a irónica do O'Neill, a jocosa do Assis Pacheco ... Para todos os que que partiram e que, hoje, particularmente, se revisitam, o Dies Irae do requiem de Verdi, de todos o meu preferido: exaltante, desassossegado, bordado a cheio. Assim mesmo como os quero revisitar: quase em festa.