Segunda-feira, 20 de Maio de 2013
Entretanto,
na cidade, na grande cidade, nas caixas de correio da grande cidade chegou, na passada sexta-feira, com grande frenesi e entusiasmo a GRANTA. Esta, lindíssima, é a dos Gatos e a foto é da Maria.
“(…) E se o coração se fortalece com exercício físico, o eu fortalece-se exercitando o pensamento. Tem de ser assim. Exercitar o pensamento cria, com certeza, outros canais partindo do eu, canais alternativos ao senso comum. O senso comum é o canal com que o eu vem equipado quando se nasce. É através desse canal, ou de outros que entretanto se criem, que os símbolos – palavras, imagens – afluem aos nossos pensamentos. Os símbolos viajam a velocidades alucinantes e constroem a arquitectura delicada que é o pensamento. Uma arquitectura espiritual, em contraponto com a arquitectura material que o corpo é.
Com o passar dos anos, a rotina, o cansaço ou outras razões podem estreitar o senso comum ou outros canais importantes que tenham sido criados. Então, se não existirem saídas alternativas o eu definha. Morre. O corpo pode continuar a funcionar mas o pensamento fica para sempre a repetir o que já foi pensado e repensado.
Aí sim, no lado direito do peito, oposto ao coração, um vazio. (…)”
Dulce Maria Cardoso, Em busca d’Eus Desconhecidos, in GRANTA, PORTUGAL, I
9,00h “Pela Rota dos Açudes” – conhecer e contactar com a beleza e paisagem do Norte Alentejano: e o deslumbre e a picada
O Tejo aos meus pés.
O Tejo pelas minhas costas.
Um pescoço lindo – o da E. – e uma orelha sofrível – a minha - picadas. Umas colmeias abandonadas ali pelo campo e cheias de abelhas danadinhas para se protegerem do bicho homem. O C. saiu incólume e ainda bem porque foi quem me livrou da abelha que desesperada andava às voltas dentro da minha orelha e se havia enredado nos meus belos cabelos e, talvez, nos meus gritos. Muito eu gritei. Tadita. Até me dói pensar que se calhar morreu. Senão por ter perdido o ferrão, com o susto da minha gritaria.
9,00h “Pela Rota dos Açudes” – conhecer e contactar com a beleza e paisagem do Norte Alentejano: a meio caminho
Olhando para trás.
Olhando para a frente.
Abastecendo.
E tomando a devida nota da atenção a dar ao gado manso. No ínterim, já tinha eu avistado duas belas corças a correrem pela encosta muito assustadas, já nos tínhamos abrigado debaixo de uns arbustos por causa de uma incauta chuvada, já tínhamos tirado belas fotos por entre aquele imenso campo de malmequeres amarelos.
Neste descanso, o C. descascou para a E. e para mim duas belas tangeras que trazia na sua mochila. Sumarentas e doces, souberam-nos melhor que um gelado do Santini. Sobretudo porque nem sequer tivemos de enfrentar qualquer fila. Um maridão merecedor desta minha muito querida amiga E., este meu amigo C.
E estávamos entusiasticamente a meio caminho.
9,00h “Pela Rota dos Açudes” – conhecer e contactar com a beleza e paisagem do Norte Alentejano – Do Quilómetro 1, 2, 3 ou assim.
9,00h “Pela Rota dos Açudes” – conhecer e contactar com a beleza e paisagem do Norte Alentejano – Quilómetro Zero
E, de seguida, agarrei-me aos batins, deixei-me conduzir pelos meus queridos amigos e foram 10,6 Km de muita caminhada a pé, uma mordidela de uma abelha que se resolveu anichar dentro de uma das minhas orelhas e beleza, beleza, beleza:
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Quilómetro Zero.
A dado passo desisti de disparar. Elas não traduziam metade da beleza daquilo tudo. E confessei que estava com pena de não dispor de um aparelho fotográfico na memória. Pois, isso: uma memória fotográfica. Pronto.
8,30h Despertar (se não mais cedo com as corridas e risadas dos Pirralhos, ou mesmo alguma pequena birra...) e pequeno-almoço
Abrindo a janela do meu quarto, esperava, a 18 de Maio, um dia sorridente e este maravilhoso e sossegadinho rebanho e esta descansativa paisagem:
E, indo para a cozinha, na mesa do pequeno-almoço esperava-me uma bela surpresa que documentei, mas não posso pôr aqui. Porque este é um blogue orgulhosamente anónimo com o rabo de fora. Mas eu conto: a E. colou na caneca onde me ofereceu o maravilhoso café de cevada um autocolante que dizia: Bom dia, Iozinha.
É claro que me emocionei. Mas aguentei-me e não chorei. Valente!
A ida e a chegada
Não documentei. Não tenho fotos nem da ida, nem da chegada. Só sei que a E., generosamente, foi sentada ao meu lado, deixando-se conduzir por mim, sem uma reclamação, um “tem cuidado”, um “olha lá” e quejandos – és mesmo uma das minhas melhores amigas, pázinha! – e largando o marido e os filhos no carro da frente. Deve ter chegado ao norte alentejano num frangalho, a minha querida amiga.
A tocar, em repetição, ia
mas não ouvimos nada. Porque fomos o caminho todo a matraquear. Falámos de tudo ou de quase tudo, porque ao longo do fim-de-semana nunca nos faltou tema de conversa. [Ainda não to disse E., mas tinha tantas saudades tuas. Da tua inteligência, do teu brilhantismo e rasgo, da forma célere e pragmática como explicas e exemplificas as coisas, do maravilhoso sentido de humor que me solta constantemente a gargalhada, do teu ar atento e sereno às minhas patacoadas e dislates. Nã, não tenho inveja. Já sabes que eu não tenho inveja. Gosto é muito, mesmo muito, de ti.]
E apesar de termos ido a uma média suave e segura, sobretudo, levando pirralhos a dormir no banco de trás, lográmos chegar com cerca de meia hora de avanço para a hora programada. E ainda parámos a meio, já quase na meta de chegada, quando se nos atravessaram pelo caminho duas raposinhas muito pequeninas e lindas que devem ter apanhado o susto da sua vida. Mal sabiam elas que ali só iam alminhas namoradeiras de bichinhos. E mal aterrados, carros descarregados e estacionados, bebi o melhor café de cevada depois do da minha avó. O pai da E. tinha deixado em cima da mesa, pronto para nós: café de cevada ainda morninho e bolinhos. Bebi a minha canequinha de café de cevada e, como o programa do dia seguinte era exigente, demos beijos e abraços e ala: caminha. Calhou-me um quartinho lindo e mal aterrei, adormeci. Não sem antes ter pensado um bocadinho na solidão da minha Camilita.
Programa de 18 e 19 de Maio de 2013
O email chegou pela manhã de dia 16 e rezava assim:
17 de Maio (sexta-feira)
· Saída 21,45h com destino ao Norte Alentejano
· Chegada 0,45h
18 de Maio (sábado)
· 8,30h Despertar (se não mais cedo com as corridas e risadas dos Pirralhos, ou mesmo alguma pequena birra...) e pequeno-almoço
· 9,00h “Pela Rota dos Açudes” – conhecer e contactar com a beleza e paisagem do Norte Alentejano
· 12,30 Chegada e descontracção
· 13,00h Almoço – Iguarias e delícias Alentejanas
· 14,30h Visita ao Monte queimado com posterior prova dos produtos regionais
· 15,30h Passeio pela Bélgica em viaturas de duas rodas com visita à fauna da zona
· 16,30h Lanche, com ingestão das mais rápidas criaturas comestíveis
· 17,30h Safari pelos mais belos Olivais da zona com degustação da pura água da Aldeia
· 19,00h Final de tarde na esplanada fluvial apreciando a calma local
· 20,00h Banhos e afins
· 21,00h Jantar e serão em família
· 23,30h Ó-ó
19 de Maio (Domingo)
· 8,30h Despertar (se não mais cedo com as corridas e risadas dos Pirralhos, ou mesmo alguma pequena birra...) e pequeno-almoço
· 9,00h Programa com as mãos na massa
· 10,30h Passeio -” mexendo os braços para viajar”
· 12,30h Observação dos habitantes locais na arte de manejar os utensílios do forno
· 13,30h Almoço
· Tarde Livre
· 20,00h Massagem tailandesa (quem não puder cumprir esta parte do programa fica desde logo obrigado a inscrever-se em novo programa, no mesmo local, em data a agendar).
Material necessário
· Chapéu
· Protector Solar
· Óculos de Sol
· Batom do Cieiro
· Calças confortáveis e resistentes
· T-shirt e camisola de fibra
· Botas ou ténis de caminhada
· Calções
· Fato de banho
· Chinelos
· Repelente
· Maquina Fotográfica (iphone também serve)
· Binóculos
· Batons de trekking
· Impermeável –respirável
· Mochila Pequena
· Cantil ou Garrafa de 1l
· Bolsa de higiene pessoal
· Saco cheio de paciência e boa disposição
Nota: No caso de não ter alguns destes itens, é favor avisar a organização, a fim da mesma proceder ao seu aluguer
Eu respondi assim: Oh amoris, não tenho os tais dos batins de trekking e binóculos só os da ópera :-DDDD
A resposta não se fez esperar: Não faz mal, nós levamos um par de batins a mais e binóculos sem ser de ópera ;-)
E depois foi como se segue.
Domingo, 19 de Maio de 2013
Aqui quedei-me em silêncio e quase cri em Deus
Chão Belo e o Rio Tejo, Alto Alentejo.
Duas horas antes daquela outra foto, na cata e observação das corças e veados, consegui, num recorde pessoal, manter-me em silêncio durante cerca de meia hora. Fui esmagada pela beleza e pelo encantos e serenidade de dois seres humanos de mão cheia e por toda aquela natureza avassaladora. Antes de me calar, não por obrigação ou educação ou conveniência ou estratégia ou qualquer coisa assim, mas por necessidade, disse à E., é capaz de ser em alturas destas que afirmamos que se quiséssemos podíamos acreditar num só Deus. Um mundo da mais profunda e atordoante beleza me inundou e quase esmagou. Não chorei porque me jurei que não ia chorar. Mas fiquei inundada de emoção. Uma emoção que me cortou, felizmente, o pio e me fez ficar ali a ouvir o chilrear do rio nas pedras aos meus pés, o piar das aves que nos sobrevoavam, o suave abraço das duas margens.
Lembrei-me de uns versos de Neruda e de um fado de Camané. Felizmente, calei.
En mi patria hay un monte.
En mi patria hay un río.
Ven conmigo.
La noche al monte sube.
El hambre baja al río.
Ven conmigo. (…)
E a Camilinha?
perguntam. Está linda! Pediu mimo que eu, sem me fazer rogada, lhe dei. Comeu e bebeu bem. E, depois do regabofe do mimo, anda aqui pela casa feita doida a correr de um lado para o outro, a saltar sobre os sofás e afiar as garras no dela, o que já foi branco. Foi um reencontro bonito. Ao contrário dos outros dias, em que já está à porta a miar, hoje, demorou a aparecer. Chegou amuada e desconfiada e vi-me compelida a fazer aquela fita que fazem os amantes audaciosos: larguei tudo à entrada da porta, mesmo antes de a fechar, correndo o risco dos vizinhos me verem naqueles preparos: joelhos no soalho e aquele movimento dramático e quase trágico do “quero lá saber dos bens materiais, vem mas é aos meus braços!” Clamei, sim, pela sua lambidela. E, claro, surtiu o efeito desejado. Surte sempre. As gajas, pá.
Creio no sol, mesmo quando não o vejo
Creio no amor, mesmo quando não o abraço
Creio em Deus, mesmo quando Deus se cala.
Três versos que formam o poema Credo de José Tolentino Mendonça, na Estação Central (Assírio & Alvim). Duas horas antes de tirar aquela foto, pensei em Deus. Na hipótese de existir um Deus em que eu pudesse crer, mesmo quando se cala. Nessa impossibilidade, resta-me corroborar o que já sabem: creio com sinceridade no sol, mesmo quando só o pressinto e creio firmemente no amor, mesmo quando, como até agora, só colho desastres. A foto foi tirada ontem, 18 de Maio de 2013, cerca das 21 horas, depois de avistarmos ao longe duas belas corças, no mais alto do Alto Alentejo. Um fim-de-semana perto do que posso qualificar de perfeito. Só me falta uma unha negra para voltar a estar e ser. E hei-de consegui-la. Porque quem, como eu, tem a sorte de ter amigos assim, como a E & o C, que proporcionam a uma pobre palonça, como eu, um fim-de-semana digno de uma Rainha, não pode andar pela vida a lamuriar-se. Portanto, se me voltarem a ler por aqui armada em parva, estais autorizados a dar-me um par de estalos. Mas daqueles à cinema, sim?
Obrigada E. & C.
Eu sei que isto vindo da ponta dos meus dedos ou dos meus lábios, saindo directamente de onde saem estas coisas – maravilhoso coração maravilhoso -, é mais um lugar comum. Mas eu sou um lugar comum. E gosto. E gosto-vos.
Adoro-vos, miúdos!
Assim mesmo aos dois. Assim mesmo aos quatro.
Mantenham-se. Cuidem-se. Desarrumem-se. Amem-se. A ordem dos factores é arbitrária conquanto que me fiquem junto até ao fim dos vossos dias. Quando vos apetecer companhia para dar pontapés em calhaus, ouvir o barulho da água do rio, observar passarinhos, colher flores silvestres e do campo, acartar lousas para fazer muros e ajuda para a apanha da azeitona, apitem. Por favor, por favorzinho, apitem mesmo. Gosto muito e tanto e imenso e assim toneladas de infinitos de vós os dois, pázinhos!
Sexta-feira, 17 de Maio de 2013
A minha Camilita
Ainda não fechei o computador, ainda não fechei as luzes, ainda não tranquei a porta e já estou cheia de saudades dela. É só um fim-de-semana. Mas que hei-de eu fazer se me dói.
Ele ainda há coisas surpreendentes
neste país: um lindíssimo e inesperado arco-íris (a fotógrafa é paupérrima, mas a ideia era boa) e uma excelente decisão.
Dia 18, dia Internacional dos Museus
A convite do Museu Nacional do Traje, José António Tenente participará nas actividades especiais que o museu preparou para assinalar o Dia Internacional dos Museus, 18 de Maio. Nesse âmbito, terá lugar pelas 17h, no belo cenário da capela do antigo Palácio do Monteiro-Mor, uma conversa em torno do seu processo criativo, conduzida pela socióloga e jornalista de moda Cristina Duarte.
ENTRADA LIVRE
MUSEU NACIONAL DO TRAJE . 18 DE MAIO . 17 HORAS
Largo Júlio de Castilho . Lumiar . Lisboa
Telefone (351) 217 567 620 / 217 543 920
Mº LUMIAR (linha amarela) Autocarros 36, 108, 701, 703, 796
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Terça-feira, 14 de Maio de 2013
Oceanário
No domingo, cerca das 16h, sentados no Grande Auditório da Gulbenkian, a 4 filas do palco, sem ninguém à nossa frente:
- E aquele post chamado adoro-vos era para a A. e para o T.
- Ah sim? Não tinha percebido.
- No dia em que o T. nasceu, eu estava num restaurante, sem rede, com o pai que me contava, divertidíssimos, as delícias que tinha visto à Amália e ao Eusébio. Oh pá, se já adorava lontras …
Neste ínterim sentam-se à minha frente e à dele dois cavaleiros bem volumosos: altos e corpulentos que nos tapavam quase por completo a visibilidade do palco.
Diz a minha excelsa companhia:
- Ainda bem que adoras lontras. Imagina se adorasses leões marinhos.
Ao vivo e a cores
Há muitas e tantas do SG de que gosto. Mas tenho uma ternura tão grande, mas tão grande por esta.
O P.
mandou-me há pouco um sms a dizer que trata do caderno de encargos da casa do Oeste no fim-de-semana e, de caminho, perguntou-me se conhecia este concerto para violino. É claro que não. Fiquei em pulgas, mas no trabalho não há distracções: não me pagam para ver youtubes e facebooks e quejandos, o que me parece muito bem.
Estou pois, desde há um bocadinho, deslumbrada. O que já sabemos, em mim, não é difícil. Tudo porque eu sou fácil.
Existir - Força
Fundação-Liga, Casalinho da Ajuda, Lisboa
Tem mais um ano do que eu. Conhecemo-nos na Faculdade. Logo no 1º ano. Partilhávamos, entre outras coisas, a paixão pelo teatro. Nunca fomos íntimas, mas tivemos sempre o acaso a juntar-nos. Na Faculdade tínhamos uma ou duas amigas dilectas em comum. Após a Faculdade, veio a ser companheira de gabinete da mulher da minha vida e subordinada do meu farolinho querido. Há uma década ou mais, foi-lhe diagnosticada esclerose múltipla. A cada vez que a volto a ver – não a vejo tão amiúde quanto devia - qualquer coisa piorou. Mas embora fisicamente ela esteja já numa cadeira de rodas e nos tenha pedido para lhe partir a carne, psicologicamente e de ânimo está fina. Uma guerreira. Sempre que saio de ao pé dela só me apetece partir-me a cara. Eu e as minhas frescurinhas de gaja saudável.
Parcimónia
Esta crónica de fim-de-semana de Luís Januário é muitíssimo bonita.
Gosto particularmente deste pedacinho luminoso:
Um destes dias encontrei em Celas a minha amiga Madalena. Madalena não é grande apreciadora do género humano e é particularmente crítica dos homens, que acha pouco sensíveis, auto centrados, complicativos e excessivamente preocupados com o sexo. Tomámos um café e, contra o que é hábito e ao que me lembre aconteceu pela primeira vez, acompanhou-me até à mota que por necessidade, eu deixara estacionada junto a um muro, num passeio público. Quando estávamos perto, destacou-se de um pequeno grupo de homens que conversava, um que , enquanto apanhava os cadernos que poisara sobre o assento da mota, disse: - Peço desculpa por ter utilizado, embora com parcimónia, o seu veículo.
O rapaz era magro e tinha boa figura. O movimento que fez foi discreto e cheio de elegância. O timbre de voz era caloroso. Eu ouvi a sua frase como se fosse dirigida a Madalena. Mais importante ainda: ouvi a frase, e sobretudo a palavra “parcimónia”, como Madalena a estava decerto a ouvir, uma certeira proferição física vinda “por onde o vulnerável cão do espírito ladra e lavra” até uma rapariga que quase desistiu de a ouvir.
Pus o capacete e executei o humilhante conjunto de manobras que, para abreviar, descreverei como “baixar o descanso central e iniciar a marcha”. A minha amiga tinha o sorriso feliz que a anima nos raros momentos em que parece acreditar na máxima de Pangloss. Aproximei-me dela e levantei a viseira, enquanto, com a moto de novo parada, soltava uma breve aceleração involuntária, que soou como um grunhido exibicionista. - Sai do meio da rua, Madalena. Queres ser atropelada? E ela, sem se mexer, ainda confusa: - Quem é o rapaz que adjectivou os apontamentos de "parcimoniosos"? Como é que se pode alegrar o coração de uma rapariga com uma palavra inesperada?
Gosto muito disto
Não conhecia e estou a gostar imenso. Não sei se esta é a minha preferida, mas é uma das que mais gosto. Vi, hoje, no CCB, que vai dar um concerto no pequeno auditório já na próxima quinta, dia 17. Não se pode ir a todas, o que é uma pena.
Segunda-feira, 13 de Maio de 2013
Onde é que eu ia?
Ando a desenterrar passados e depois admiro-me que me esqueça do presente.
Decidi que ia, depois da terapia, ao Colombo. No caminho enfiei para casa. Antes de enfiar pela garagem, acordei-me: Colombo. Inverti e no caminho certo, interroguei-me: e ao certo o que é que lá vou fazer? Comprar os livros e discos para dar de prendas atrasadas, fraldas para mamãe, queijo da ilha para o meu colesterol, temptations para a Camila, terra para a floreira. Feito. Chegada a casa, na rega da sardinheira e da hortênsia que está linda, linda, vi-me, não de vestido de noiva, mas de calças de ganga e foi então que me ocorreu. Eu ia ao Colombo comprar umas calças de ganga.
A Fundação-Liga
Sei que vou escrever sobre o assunto, porque ele é-me muito importante. Mas não vai ser hoje. Gostava que fosse. Mas não consigo. Foram emoções a mais. Muitas. Desmedidas. E, de momento, só me ocorre o título do livro do MEC. Só vos quero pedir que, se ainda não fizeram o IRS, doem os vossos 0,5% à Fundação-Liga: 504 852 728.
Acorre e ajuda a pessoas dos 0 aos 100 anos, com toda e qualquer deficiência há 55 anos e sobrevive com todas as dificuldades que imaginais que neste podre e devasso país todas as IPSS sobrevivem.
Já que Vénus e Cupido nada querem com ela
Tan bizarra Y presumida,
tan valiente y tan arrogante,
que ha jurado que ella sola
ha de vencer al dios Marte.
Amor e seus dislates
Domingo, 12 de Maio de 2013
Parece que a natureza descansou
Já mesmo no fim, antes da última, Fahmi Alqhai disse que, nestes tempos tristes de crise e de mal estar generalizado, o que nos pode salvar e unir é a música, alusão que ganhou maior significado tendo presente que se juntaram no palco do Grande Auditório da Gulbenkian, este final de tarde, com vista para aquele maravilhoso jardim, 3 violas da gamba e uma viola barroca de uma banda e da outra uma guitarra e percussão de flamenco e um cantor de flamenco. Juntaram-se-lhe ainda uma flauta de bisel e uma soprano e foi um concertão. A fusão do barroco antigo com o flamenco. Um deleite.
Curiosamente, não tinha bilhete para este concerto das 19h que, aliás, nem sabia que ia haver. Larguei o boulot e fui até à Gulbenkian, cerca das 15h, para assistir às 16h a uma outra beleza para a qual tinha bilhete desde Julho do ano passado: Accademia del Piaccere que iria tocar Marin Marais e Forqueray, sob um título mais do que sugestivo, auspicioso: Les violes du ciel et de l’enfer.
Le ciel, Marin Marais: doce, suave, encantadoramente penetrante. L’enfer, Forqueray: desassossegado, intrépido, fogosamente inquietante.
Uma das peças que mais me emocionou foi a beleza desta Sarabande Grave de Marin Marais, que, em concerto, foi infinitamente mais bonito, porque só com violas e sem o som do baixo contínuo:
À medida que o concerto foi prosseguindo fui lendo as notas do programa e apanhei o que Voltaire, anos volvidos, escreveu sobre a confluência de talentos na corte de Luís XIV:
É uma época digna da atenção dos tempos vindouros aquela em que os heróis de Corneille e Racine, as personagens de Molière, as sinfonias de Lully, novas para a nação, e (já que aqui não se trata unicamente das artes) as vozes de Bossuet e de Bourdaloue eram escutadas por Luís XIV, Condé, Turenne, Colbert, e esta diversidade de homens superiores. Não voltarão os tempos em que um duque de La Rochefoucauld, autor das “Máximas”, depois de conversar com Pascal, se dirigia ao teatro Corneille. Não tem havido muitos génios desde os belos dias destes artistas ilustres: parece que a natureza descansou.
Nessa altura, os dois maiores tangedores de viola da gamba de sempre vêm a reunir-se na Corte de Luís XIV. Um para nos levar ao céu. O outro para nos enfiar num prazenteiro inferno.
Foi assim o concerto das 16h: Marin Marais na primeira parte e, sem intervalo, Antoine Forqueray, na segunda, com um encore: a belíssima Sarabande Grave de Marais.
No entretanto, li no programa mais qualquer coisa. Para além de já me ter decidido a trazer para casa o cd que conteria as peças que estava a ouvir, descubro que o grupo havia gravado um cd em que cruza barroco e flamenco. E eis que, na banca dos cd, me apercebo que, pelas 19h, ia haver Accademia del Piacere de novo, mas agora em versão flamenco. Decidimos – estava com a minha mais adorável e excelsa companhia – ficar. E não perdemos nada. Antes pelo contrário.
Chegada a casa e despachados dois trabalhitos que ficaram pendurados, andei pelo youtube à procura dos vídeos que pudessem ilustrar o meu encanto, mas, desta feita, não vislumbrei nada de tão maravilhoso e deslumbrante quanto vi e ouvi desde as 16h no Grande Auditório da Gulbenkian. O concerto da mistura de barroco e flamenco foi uma desbunda de boa música e os vídeos do youtube são uma pálida amostra do que por ali se viu e ouviu. Arcángel, o cantor de flamenco, é absolutamente fabuloso e, aliás os seus músicos, idem, idem, aspas, aspas. Mas a surpresa de ver a garra da viola da gamba de Fahmi Alqhai a ombrear e a desgarrar com a guitarra de flamenco foi uma belíssima surpresa. Um final de tarde, estrondoso, para um fim-de-semano calminho.
Mas para que não fique a nota de que tudo me corre bem, eis o que me correu mal: estive para trazer também o disco só com peças de Monteverdi. Mas encolhi-me. Já trazia 2. E eis que nas voltas do youtube deparo-me com esta pequenininha maravilha:
Não ser acrobata
Era eu pequeno e, só falando bem inglês, o meu pai entrou em pânico e arranjou caixas de sapatos que enchemos de envelopes com cartões lá dentro. Em cada envelope eu escrevia uma palavra e, no interior, a definição, mais uma citação usando a mesma palavra.
Eram centenas de envelopes. O meu pai depois escolhia um ao calhas, lia a palavra ("indispensável") e desafiava-me a lembrar-me do que queria dizer. Dentro do envelope, escrito na minha mão, estava a resposta. Ele ajudava: "Como a água, o oxigénio, a comida (e entusiasmando-se), o dinheiro, tempo para ler..."
Eu respondia, arriscando, que "indispensável" significava "muito bom". O meu pai esforçava-se para não se zangar e dizia-me que a resposta estava no latim. "Infeliz" era composto de "in", que queria dizer não, e de "felix", que queria dizer feliz. Infeliz era não feliz e logo indispensável era...? E eu respondia: "Uma despensa que é impossível de construir" e, logo a seguir, "uma despesa tão cara que ninguém consegue pagar".
O meu pai, exasperado, aconselhava-me a "pensar em vez de inventar". Eu não pensava e ele gritava, com razão, até a minha mãe entrar a ameaçá-lo que, se ele continuasse a gritar comigo, ela proibiria que ele me desse explicações.
Ele passava a falar baixinho, o meu querido pai. Disse-lhe que queria ser acrobata e ele segredou-me que mais valia ser nefelibata. A viver nas nuvens, com a cabeça. Nem vinha nos envelopes.
Foi o melhor conselho que me deu.
Miguel Esteves Cardoso, Ainda Ontem, Público de 12 de Maio de 2013
Acontece
Acontece que tenho de trabalhar e que não me apetece.
Acontece que fui à procura de um vídeo/audio de uma das canções do novo disco da Luisa Sobral e que me aconteceu este miminho.
E depois fui à cata do próprio do Cartola.
E eis que me aconteceu o Caetano e a Gal.
Acontece.
Sábado, 11 de Maio de 2013
Fugas
Passei o dia a dormir. Tive uma semana buliçosa e ontem foi um dia particularmente agreste quer no trabalho, quer no serão. A maravilhosa paella do Lacerda foi guarnecida por uma conversa pouco doce e feliz de parte a parte. Não via a minha amiga há cerca de 2 anos. Tínhamos estado, a última vez, também no Lacerda, antes do casório, como ela fez questão de me lembrar. Há dias mandou-me um sms a dizer: gostava que fossem lá a casa jantar. Assim mesmo no plural. Lá lhe dei a notícia: só se quiseres que leve a Camila. Ontem, estive a contar-lhe em que se transformou a alegria esfuziante de há 2 anos. Não chorei. Não me emocionei. Não me crispei. Só disse meia dúzia de asneiras. Mas foi duro, apesar de ter sido um bom sinal. Parece que a coisa, paulatinamente, se arruma e encaixa. Burla é para ser assumida de cara levantada e sem vitimizações. Caíste, caíste. Agora levanta-te. Foi o que me parece que fiz. Se calhar ainda vou choramingar um dia ou outro, lamber uma feridita ou outra, mas quer-me parecer que o pior já passou e que já estou em vias de colocar na arrecadação ou na garagem da casa do Oeste tudo aquilo que cri ser a mais importante e bonita e feliz fase da minha vida, o homem da minha vida, o ajuntamento que me levaria até ao mar da praia do Norte em cinzas e todos os outros clichés do mundo, num saquito do continente atado com um pedaçito de baraço culinário e com uma faixa pintada a marcador grosso que há-de dizer: desastrezito. Esperemos que tenha aprendido a lição e não caia em mais nenhum conto do vigário, canto da sereia e por aí adiante: So help me the gods. Por seu turno, a minha amiga contou-me uma vida de pesadelo e fiquei literalmente à rasquinha e de rastos com tudo o que ouvi. Impotente e muito pequenina, preocupada com os meus maus ajuizamentos emocionais e as minhas cegueiras, quando ali, na minha frente, estavam vários dramas humanos na pessoa mais frágil e franzina que já conheci na vida. Bolas.
Resolvi pois acamar tudo isto com muitas horas de sono. E fiz bem. Tive, no entanto, umas interrupçõezinhas nos meus belos e prazenteiros son(h)os. Pelo final de tarde, cineminha. Pelo final da manhã, fui dar uma volta a pé pelo bairro. Não o fazia há meses e meses e meses, senão mesmo anos. Deixei os sapatos e as botas para pôr capas no novo sapateiro. Comprei pão fresco na padaria ao pé da minha antiga casa. Vi lojas novas e outras encerradas. A leitaria do Senhor Daniel está fechada e eu nem quis saber o que se passa ou passou. Ficamos assim, como se ele hoje tivesse ido tratar de uns assuntos pessoais. Vi árvores que não sei o nome. Encontrei uma loja de animais com muito bom ar que me vendeu o Defurr-Um e o Advantage para a Camila, bem mais barato do que no Fonte Nova e onde marquei a inevitável tosquia. E depois fui à tabacaria para comprar os jornais e havia fila. O jogo. As raspadinhas. Já há umas semanas o MEC havia escrito uma crónica sobre isso e hoje é, no Expresso, o Padre Tolentino. Voltámos à magia. Que num passe de mágica que uma raspagem por um euro mude a vida de quem já não pode com uma Camila pelo rabo.
Simon
Professor Lazhar, ainda no El Corte Inglès, só às 19h.
Aviso para os mais sensíveis: eu chorei. É certo que sou mau exemplo porque eu choro por tudo e por nada. Mas também gargalhei meia dúzia de vezes e achei um filme lindo. Gostava, aliás, de encontrar para trazer para aqui e para ler e reler a fábula do professor.