sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Não escrever

Lyubov Popova, Duas Figuras

Estava de volta destes mais do que divertidos, supinamente interessantes disparates literários, a pensar em como, à minha minúscula escala, à minúscula escala do A&OD, sinto uma enormíssima responsabilidade ao carregar no botão “PUBLICAR MENSAGEM”.
Errare humanum est é talvez o brocardo latino que mais cedo entra no nosso léxico ou a que, pelo menos, mais facilmente nos afeiçoamos, pela possibilidade que encerra de, com algum grau de erudição, evidenciar que a tendência para o dislate está na nossa condição humana. Mas não é só a possibilidade do dislate, do erro, da falha de conhecimento que, na escrita, preocupam. Também a possibilidade de se ser mal interpretado, de prosaicamente escrevermos alhos e quem nos lê, na maior boa-fé, ler bugalhos ou, pior ainda, de deixarmos passar uma qualquer inconfidência, algo que, bem sopesado, não faz sentido alardear. Nisto, já em queda livre, deparo-me com a visão bartebliana da coisa: o melhor mesmo é não escrever ou como, para o universo das missivas, lia ontem à noite no absolutamente fascinante Os Irmãos Tanner, de Robert Walser:

Quando escrevemos, somos forçados à confidência imprudente. Nas cartas, a alma quer sempre ter a palavra e por regra usa-a para se recriminar. Por isso é melhor não escrever nada.

Pára-quedas bem aberto, planando, assumo que prefiro o erro, o risco diário do erro, o eventual perpassar de qualquer inconfidência da alma do que deixar de escrever aos meus amigos. E não tenho a mais pálida dúvida: o A&OD é uma carta diária aos meus amigos.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Onzenar

Jean Dubuffet


"En Reino de Redonda sigo publicando dos o tres libros anuales. En la Academia estoy a gusto, y desde la comisión donde estoy hemos logrado salvar alguna palabra del diccionario. Uno de los problemas es que está en desuso casi todo. El vocabulario de la gente es más limitado de lo que ha sido nunca. Sería bueno que se empezara a usar palabras olvidadas para recuperar varias de ellas."

A ler na íntegra (clicando no extracto), Javier Marías, em discurso directo.
Cheguei à entrevista quer pelo facebook do Carlos Vaz Marques, quer pela crónica matinal de Fernando Alves, na TSF, que mencionando-a, sublinhou a importância de salvarmos as palavras. Contava ele que, em Espanha, houve, há tempos, um movimento nesse sentido no qual o Primeiro-Ministro alinhou, salvando uma palavra. Depois, nessa demanda redentora, despediu-se Fernando Alves do auditório não com um trivial bom dia, mas com a expressão que esclareceu usar-se, outrora, na sua aldeia : Salva a Deus!
Acho linda esta ideia de salvarmos as palavras, que, em boa verdade, acho que é, talvez, indirecta e até inconscientemente, um dos princípios orientadores de alguns dos meus blogues preferidos. Na realidade, alguns dos meus blogues favoritos não só salvam as palavras, como as dignificam e esse é, em minha opinião, um dos muitos méritos da blogosfera.
Sem qualquer pretensão, mas pegando no repto de Javier Marías e Fernando Alves, eis-me a tentar salvar uma palavra que ouvia à minha avó e à minha mãe e que fora da boca delas nunca mais ouvi: onzenar. Usavam-na no sentido de intrigar/mexericar: “isso é ela a onzenar” ou “é danada para onzenar” ou "lá está ela a onzenar" são frases que ouvi, amiúde, na infância e na juventude e que, com a sua partida – a minha avó materna faleceu há cerca de 20 anos e o alzheimer da minha mãe roubou-lhe, para além dos afectos, a fala -, nunca mais pus os ouvidos em cima. Em boa verdade vos digo que não me faz falta. Não acho sequer que seja uma palavra bonita. Não posso, no entanto, deixar de notar que, já este ano, vogando nas parangonas diárias dos nossos jornais, pareceu-me ouvir a voz da minha mãe: Carricinha, não ligues. Estão só a onzenar.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Sob o signo do sol

Ontem, já noite cerrada, cruzei-me amiúde com o sol. Chegada a casa, saudei a gata Camila que, em miados suaves mas sentidos, se enrolou aos meus pés. Acto contínuo e ainda antes de tirar a farda, tratei de estender a roupa branca que estava na máquina, auspiciando, para hoje, o dia soalheiro que não está. Depois, pela mão do meu Sol, chegaram duas prendas dignas do bom gosto do meu Rei: os irmãos Tanner que, horas mais tarde, comecei a devorar e uma encantadora colectânea que há muito namoro e que, na sequência desta decisão, seria pecado não fazer parte da nossa discografia: é que, para além de ser cantado por quem é cantado, inicia-se justamente com aquele Ombra mai fu.
Pelo meio de conhecidas árias de Handel, Gluck e Mozart, surge esta preciosidade de Johann Adolph Hasse com poema de Pietro Metastasio:



Palido il sole
Torbido il cielo
Pena minaccia,
Morte prepara,
Tutto mi spira
Rimorso e orror.
Timor mi cinge
Difreddo gelo,
Dolor mi rende
La vita amara,
Io stesso fremo
contro il mio cor.


E foi embalada por este tão pouco pálido sol que me embrenhei nas leituras de fim de dia. Antes mesmo de me enfiar na cama, de terminar o Ilusão da Luísa Costa Gomes – giro, muito giro: uma parábola muito inteligente e muito bem escrita que nos faz soltar espontâneas e gostosas gargalhadas e nos deixa a cogitar sobre o nosso medíocre quotidiano e a armadilha em que caiem, não raras vezes, as nossas relações - e de iniciar o Walser, folheei o imprescindível Obra Breve da Fiama e cruzei-me, inesperadamente, com esta encantadora epígrafe que já teria lido, mas não retido:

Muitas vezes prefiro a sombra do Sol à régua, para ajudar o traço.” Alfredo Neto Ribeiro, canteiro, em entrevista ao Público, 29/11/1993.

Lembrei-me então e de novo de Jorge Luís e Borges e do meu alegre estado civil: do escritor, por causa do resistente amarelo que foi a última cor a esvair-se na escuridão da sua cegueira. Um amarelo que, inevitavelmente, não se pode deixar de associar ao intenso e brilhante astro; do SOL impresso no meu Bilhete de Identidade que, como notava há uns anos, o Pedro Mexia, numa das suas belíssimas crónicas da revista do DN, faz de todos e cada um de nós, em toda a sua vida ou em parte significativa dela, criaturas oficialmente solares.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Parabéns, minhas constelações!

Há uma menina linda que hoje festeja o seu dia de aniversário e que tenho a sorte de ter na minha vida. Menina-mulher corajosa, dotada de um espírito vivo e irrequieto e de um sentido de humor invejável, sem ela, o meu pequeno mundo seria infinitamente mais pobre e muito menos colorido e animado.
Daqui, do cantinho do A&OD, seguem os meus cantarolados “parabéns, amiguinha querida!” e em jeito de prendinha esta preciosidade pela voz de um dos meus amados contra-tenores:



Mas não é só ela: também o JAT está de parabéns. Há já alguns dias que o amor perfeito chegou às perfumarias, mas só ontem foi o seu lançamento no museu do design e da moda.
O amor perfeito do JAT é um maravilhoso perfume de cor lilás – como algumas das flores que lhe emprestam o nome. E, ou muito me engano, ou é certo e sabido que vai destronar o meu eterno l’eau d’issey. Ontem, à despedida ele enfrascou-me nele e eu, consoladinha, passei o serão enrolada em aromas de amor e perfeição.
Para o JAT que é um melómano eclético, muito dado às mais diversas músicas do mundo e dos tempos, fica este miminho de Henri Salvador que, aliás, me veio parar ao colo pela sua elegante e bonita mão:

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Sweet Carolyn

Cantou e encantou, quer pelas alegria e simpatia, quer pela doce e refrescante voz que, ontem, pelo final de tarde encheu de entusiasmo o grande auditório da Gulbenkian.
Gostei muitíssimo dela em todo o Purcell que me deixou expectante para o final onde o programa anunciava que atacaria 4 árias de Handel. Comecei por ficar decepcionada com o Desteró dall'empia, talvez por a sua interpretação ser muito diversa daquelas que tenho no ouvido, sendo que me rendi numa Lassa! ch'io t'ho perduta que desconhecia em absoluto e que é linda de morrer, deixando-me mortinha por caçar a Atalanta, ópera de onde é extraída.
Depois continuou até ao final magnificamente. Foi um encanto, conhecê-la.
Aqui, na prova provada de que ela não é só formidável em lamentos - é que não imaginais como foram bonitos os seus lamentos de Purcell e Handel - como em árias mais divertidas.



Uma nota para a fabulosa Academy of Ancient Music que esteve, quer em Purcell, quer em Handel, quer nos instrumentais, quer nos acompanhamentos, um verdadeiro e maravilhoso descanso.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Da improbabilidade da verdade

Marc Quinn

"[...] as pessoas exigem da verdade, como primeira condição, que seja provável; e contudo a probabilidade, como a experiência ensina, nem sempre está do lado da verdade" (Henrich von Kleist in sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos)

Num mundo ideal, todos os julgadores, no seu tirocínio, seriam obrigados a ler, entre outras coisas, Kleist.

By Jove

Entusiasmante Cecilia. Entusiasmente Leonardo Vinci. Por Júpiter, não confundir com o outro Leonardo, o impressonante Da.

Paris Review

Vera Tavares, Jorge Luis Borges (ilustração de Paris Review)
Ainda em maré de livros, não posso deixar de voltar a alertar para o excelente Paris Review. Dez entrevistas que descobrem novas facetas de oito escritores, instalam um enorme ponto de interrogação num alucinado e confirmam todas as facetas conhecidas do fenomenal Jorge Luis Borges que é, de longe, o melhor dos entrevistados ou, pelo menos, o que eu assim elejo: uma inteligência e um sentido de humor vibrantes, num profundo respeito pelo entrevistador e sobretudo pelo leitor da entrevista. Um monumento de civilidade. Um banho de cultura e vivacidade. No leitor (nesta leitora), escapa um suspiro lamentoso e lamentado quando finalmente ele sucumbe à chamada dos Campbell e dá a entrevista por terminada. Se vierem a ler e concordarem comigo, aconselho-vos vivamente a, se não leram, lerem, de seguida, os dois livros onde estão coligidas as conversas gravadas nos anos de 1984 e 1985 entre Jorge Luis Borges e o jornalista Osvaldo Ferrari que são de um absoluto brilhantismo e de uma erudição despretenciosa e entusiasmante. Muito, muito bom.
Mas voltando ao Paris Review, mesmo que não tivesse a entrevista de Jorge Luis Borges o livro valeria sempre a pena e continuaria a ser cinco estrelas. De facto, é absolutamente extraordinário o que se descobre sobre as idiossincrasias de cada um dos escritores a partir daqueles registos: um atento e cuidado Samuel Bellow, um rude e quase incivilizado Hemingway, um deliciosamente inusitado Boris Pasternak – e sim, a referência à alma de homem da poeta Tsvétaieva é do mais elogioso que se pode, naquela data, naquele contexto, arrancar de um homem muitíssimo elegante e educado -, um brilhante e entusiasmante Lawrence Durrel, um divertido e centrado Truman Capote, um mal disposto e arrebatado William Faulkner, um defensivo Graham Greene e um pouco entusiasmante E. M. Forster. No fundo, no fundo é assim: Paris Review lê-se de supetão e cresce em nós a súbita vontade de revisitar a obra de toda aquela malta, mormente os livros falados nas entrevistas e que nunca chegámos a ler quer porque nunca chegaram a ser traduzidos, quer porque, pura e simplesmente, não se chega a todas. Acresce que este é um livro a que se volta com muito prazer e que, curiosamente e como escreveu Eduardo Pitta no Ipsílon, detectamos, em releituras, sempre qualquer coisa de novo, tal é o manancial de informação que Paris Review nos oferece de bandeja.
Não sigam o cherne, mas sigam, se puderem e estiverem para aí voltados, o meu conselho que vos garanto ser fiável. Não são cinco estrelas. São dez, estonteantes de diversos, sóis.
Adenda: Obviamente, o ponto de interrogação alucinado é Kerouac. A dada altura senti-me no epicentro da Cantora Careca do Ionesco.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Do abalroamento

Rodney Smith

Nada como viver com um homem profundamente culto e sabedor, para que o nosso idiota orgulho – o evidentíssimo responsável pela negação quase diária da nossa garantida e infinita ignorância - baixar a guarda e as nossas curiosidade e vontade de aprender galopem por nós acima. Ora vem isto ao caso de vos confidenciar que uma das razões pelas quais ainda não abandonei o perigoso facebook prende-se com as descobertas que, inesperadamente, nele se fazem.
Há dias, o Jornal de Letras, do qual, no contexto facebookiano, sou fã, perguntava: E, agora, o que estão a ler? Por entre as dezenas de respostas – curiosamente, ninguém estava a ler o mesmo livro – surgiram duas respostas coladinhas uma à outra que me chamaram a atenção: Irmãos Tanner de Robert Walser e, logo, logo de seguida Escritos a Lapiz também de Walser. Coincidência engraçada: logo com Walser, esse errante fetiche de Vila-Matas. Se bem se lembram, andei embrenhada no Doutor Pasavento semanas e semanas. Ao lê-lo dei-me conta da existência de um livro que me interessou e que mercê do cuidado e generosidade de um dos meus mais queridos amigos, o Al, já cá canta em fila de espera para a digestão, sendo que já o provei e já conclui que é de um paladar requintadíssimo cuja degustação me irá dar um prazer desmedido. Ora, ignorante confessa, ao ler o Doutor Pasavento, não só me cruzei com esse livro de Carl Seeling, como me apercebi que Robert Walser, nos seus anos de Herisau, teria produzido uns escritos microscópicos a lápis que serão autênticas preciosidades. Gulosa, fiquei logo cheia de pena de os meus dois semestres pelo Goethe Institut só me permitirem papaguear, com pronúncia francesa, wie gehts du? e não me granjearem a possibilidade de saborear os tais micro-escritos do Walser, na sã convicção de que, para estarem a ser mencionados por Vila-Matas, seguramente estariam publicados na língua-mãe do autor. E, na minha impossibilidade, esqueci o tema.
Eis senão quando me aparecem aqueles dois comentários facebookianos que me permitiram descobrir que, como seria bom de ver, nuestros hermanos têm publicados os microgramas.
E inusitadamente a surpresa diverge da estampa espanhola – o que é que aqueles sortudos não têm editado? – para o facto de estarmos a falar de uma edição em três volumes. Três volumes grossíssimos, acrescento. É que, ao ler Vila-Matas e talvez induzida pelos relatos dos escritos na clandestinidade, quis acreditar que os micro-escritos de Robert Walser estariam condensados numa meia-dúzia de mortalhas. Agora, avisada pela grossura dos 3 volumes, percebi finalmente que se tratam de mais de 526 folhas das mais diversas dimensões cobertas de inscrições minúsculas que contêm dramas, poemas, textos breves, reflexões, ou seja, uma autêntica arca walseriana aberta e dada à luz pelo labor de mais de quinze anos de Werner Morlang e Bernhard Echte que, à lupa, foram decifrando palavrinha a palavrinha aqueles microgramas que durante anos foram consideradas ilegíveis.
Estou, como compreenderão, totalmente albarroada.
Al, amigo querido, obrigada, obrigada, mas desta feita não carece: já os encomendei.