segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Porquoi me réveiller?

Cenaças


Sabe bem, muito, muito bem, tentar comprar bilhetes para duas salas de teatro em Lisboa e encontrar os bilhetes praticamente esgotados. Claro está que o advérbio de modo faz aqui toda a diferença. Estivessem eles esgotados sem advérbio e estaria aqui de monco caído. Mas, ele há horas de sorte, e, hoje, foi assim: toda lampeira tentava reservar bilhetes para esta quinta-feira (às quintas-feiras é mais barato) para a peça que faz uma brilhante carreira na Sala Estúdio do Nacional e nicles batatóides. No Teatro, talvez por ser segunda-feira, ninguém atendia o telefone e quando a Antuérpia, minha companheira destas andanças e de fortuna, se aproximou da bilheteira online constatou, entre o espanto e a aflição, que já só havia meia dúzia de bilhetes para o último dia de cartaz, dia 21. Escusado será dizer que, trocadas as palavras-chave (compro? simmmm compra!), os arrematou e ufa … esse já não escapa.
Gaiteira e sem programa para a próxima quinta-feira, toca de ligar para o Teatro Aberto para arrematar uns bilhetinhos para a sala vermelha. Não querias tu mais nada, Io Maria? Plateia esgotada, mas (há sempre a par de um advérbio de modo uma maravilhosa adversativa) um conselho que se revelou magnífico e que vos dou em segunda mão e sem a certeza de ter qualquer préstimo: que tentássemos a ticketline ou a fnac porque lhes constava que ainda teriam alguns bilhetes. Sem perder tempo, atento o exemplo do Nacional, agarrei-me ao online e fui passeando os olhos pelo vermelho dos dias que ainda restam até 28, data de saída de cartaz, até que, sem acreditar no que via, apanhei 3 milagrosos assentos verdes 3, na quarta-feira de carnaval. É que nem pestanejei: foi clicar passando do verde para o azul e aguardar que nada, naquele interim, os impedisse de passarem ao vermelho possessivo.
Ok, as peças são boas e os elencos também. Mas não é só. É a constatação de que, finalmente, o teatro entrou no nosso quotidiano e passou a fazer parte do nosso roteiro cultural e que, inequivocamente, vai-se mais ao teatro agora do que há 20 anos, o que só pode significar que o gosto, o bom gosto, não só é transmissível como se educa: no almoço de sábado, entre o encanto e a alegria, ouvi a deliciosa, curiosa e interessada vozinha do puto maravilha: “e afinal quando é que me voltam a levar ao teatro?"

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Para o serão


Uma notinha final, já à porta do restaurante, depois de uma bela jantarada entre amigos, e eis-nos, eu e o meu belo Perseu, seguindo as preciosas pistas do Paulo, a deliciarmo-nos com a Werther de Massenet, através da medici tv, da qual extraio este pequenino aperitivo:

Seguindo o link da medici tv ou do Arte Live Web, pode aceder-se à gravação inteirinha da obra de Massenet na Ópera Nacional de Paris, em noite de estreia: absolutamente fantástica!

Só para ver e ouvir Jonas Kauffmann - que é e está deslumbrante - vale bem a pena sentar-se 2 horas e quarenta em frente ao computador. Mas há muitos outros pontos de interesse, dos quais destaco: uma cenografia e encenação primorosas e dois belíssimos sopranos: Sophie Koch e Anne-Catherine Gillet.

Óptimo para este serão de domingo!

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Engana-vista

Rui

Ontem, por manifesta e incontornável necessidade, fui ver, finalmente, as últimas fotografias do Rui: as fotos do seu 50º aniversário e da sua última passagem de ano, tudo junto dos seus companheiros de derradeiro internamento. Chorei. Claro que chorei. Ele estava igualzinho ao que era quando partiu: um bonzão. Um encantador e adorável bonzão sem eira nem beira.

Grandes expectativas


Estou de dieta. Quero voltar ao 36.
Ontem comi bifinhos de perú com cogumelos e natas, batatas fritas caseiras e arroz branco. Com salada, claro. Hoje vou comer lombo de porco com castanhas e batatas assados no forno. Com brócolos, óbvio. Também cortei nas sobremesas. Só meia dúzia de bagos de uva com grainhas e umas dulcíssimas clementinas.
Isto vai lá.

Sinais

Não se trata do excepcional e inimitável programa de Fernando Alves, nem tão pouco dos propalados da retoma. Trata-se sim de uns sucedâneos dos de fogo, os da incontornável inteligência e do excelso bom gosto: o caderno afegão entrou na sua 3ª edição (abram o link e vejam as deliciosas fotografias).

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Indecisão

Harold E. Edgerton, Bullet Through Jack, 1964

A meio caminho de qualquer coisa que ainda não sei o que seja – é só inquietação, inquietação, inquietação -, mudei de gabinete. Do meu cantinho soalheiro com vista para o rio, passei para uma assoalhada avantajada com várias janelas. Deste meu novo poiso, vislumbro, de frente, o brilhante Tejo e o altaneiro castelo e, de cernelha, o Parque Eduardo VII. E eis como, de há uma semana, me encontro na maior das indecisões: por um lado, a feminina prata brilhante; por outro, o masculino fofo verde.

Verde que te quiero verde # 31


No encadeamento do belo; n
o encalço da poesia: entre a maravilhosa precocidade de Inverno e o encantamento despojado de uma enamoradora faia.

Mais logo, pela noitinha

meu amor, dá-me os teus lábios.

(tão bom, tão bom, tão genuinamente bom, a merecer repetição, sempre e sempre e sempre)

Por dentro e por fora


O meu pai dizia, amiúde: ela é bonita por dentro e por fora, enquanto a apertava contra o peito. Há dias, apanhei o meu belo Perseu, com uma centelha de tristeza no olhar e num fiozinho de voz, a dizer: não vamos ter outra como ela.
Pois.
A gata Camila é do género afectivo, que nos mima a todo o momento com festinhas, lambidelas, marradinhas e ronrons. Tem também os seus ataques de loucura, derrapando como uma autêntica fangio pelos cantinhos das minúsculas 3 assoalhadas. Depois quando se cansa, aterra numa das suas adorações: o colo do belo Perseu, o sofá cor-de-laranja que deita para a rua, as sossegadas e protectoras varandas onde vai apanhar sol e ar, aproveitando para espreitar o casal de melros do choupo negro, o sofá branco onde afia aprimoradamente as suas unhas, as minhas botas castanhas e o tapete da sala onde se rebola regaladamente e à vez, o chuveiro verde do corredor onde se purga diariamente.
Elegante e aristocrática, pouco dada às lides domésticas, odeia o tilintar da chave na porta sinónimo de que, talvez, a romena engenheira alimentar que semanalmente passa a ferro, aspira e lava lá por casa lhe venha minar o sossego. Também se esgueira, sorrateiramente, quando, ainda que pelo canto do olho, vislumbra no seu raio de acção a esfregona, o aspirador, o secador de cabelo e o pente com que escovo o seu longo e sedoso pêlo, enquanto cantarolo: quem é linda? quem é linda? quem é linda?

Aos meus amores

foto tirada à sorrelfa do JAT-NEWS


4ª feira, fim de tarde, 2º andar do MUDE: um espaço despojado e em bruto, decorado, elegantemente, com uns bonitos e lilases amores-perfeitos e, odoriferamente, com as fragâncias Tenente. Muito, muito bem pensado. O espaço estava, naturalmente, pejado de gente bonita que ia sendo iluminada pelos flashes das câmaras digitais e pelos holofotes das câmaras de filmar. O enquadramento ideal para o lançamento de mais uma elegância Tenente. Nós, os apesar de belos, ignotos, entretivemo-nos num cantinho a beberricar gins tónicos e a debicar uns opíparos amuse bouche. Pelo escasso espaço disponível, ía circulando um conjunto de elegantes efebos vestidos com umas peças Tenente e com muito amor perfeito, ficando à disposição de quem os quisesse cheirar. Eu, mulher proba e recatada, limitei-me a snifar um pulso esquálido e estreitinho sem a dimensão necessária para o delicioso amor perfeito para homem que é absolutamente delicioso. Por seu turno, o nosso mago, sem mãos a medir para tanta beijoca e fotografia, estava radiante e, como sempre, lindo, lindo de morrer, decorado ele mesmo com os tons lilás da festa. Já de saída, pedi-lhe que me enfrascasse em amor perfeito mulher e passei o resto do serão envolta em perfeitíssimos amores. Esquisita em poucas matérias, tendo a arranjar belas migraines sempre que o perfume é da classe inundante dos sentidos. Estou pois em condições de vos assegurar que estes amores perfeitos são, qualquer um deles, absolutamente encantadores, deliciosos e aconchegantes sem qualquer centelha avassaladora e trituradora do nosso olfacto. Dignos pois de verbalizações excessivas. Algures, li a menção de que os perfumes Tenente são uma bela escolha para o dia dos namorados. Sem dúvida, para quem, ao contrário de mim, não odeie essa cretina invenção, essa disparatada importação. Se, porventura, pertencer ao meu clube todos-os-dias-são-bons-dias-para-namorar, os amores perfeitos Tenente são ideais para da palavra se passar ao acto e com ele se coroar a mais bela das declarações. Usem e abusem, meus amores. Perfeitos.

quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

Programinha de 6ª à noite


Amanhã, no S. Jorge, dois enormes: Camané e José Manuel Neto

Caminhos únicos

1- Aceitar que a leitura é o único caminho para a sabedoria.
2- Ler pelo menos um poema, um conto ou uma página de um livro por dia.
3- Comprar pelo menos um livro por semana.
4- Passar um dia inteiro a ler, sem fazer mais nada, uma vez por mês.
5- Vir pelo menos uma vez na vida à Pó dos Livros (se tiver condições físicas e financeiras).

Alguém, de imediato, comentou que não gostava de caminhos únicos ainda que sejam para a sabedoria. Lembrei-me então de um caminho único que o Paulo há dias pôs no facebook e que me emocionou às lágrimas.



Se puderem, não passem por este caminho único como
cão por vinha vindimada que é como quem escreve, despendam 5 minutinhos e vinte segunditos e vejam o vídeo.

A primeira vez (take 7)


Vivaldi. O meu amado Vivaldi.
Recordo-me cristalinamente daquela noite, quando vi aqueles homens elegantes e desempoeirados, de pé, no palco do CCB, a atacarem de uma forma electrizante as quatro estações. De repente, as quatro estações tinham ganho toda uma outra cor, uma outra dimensão. Eram os meus primórdios de barroco e aqueles homens eram, nem mais, nem menos do que Il Giardino Armonico e Giovanni Antonini. Muito, muito bons.
Mas, na verdade, a primeira vez que ora me interessa narrar vai para a cantata Cessate omai cessate. Ouvi-a, pela primeira vez, num dos meus preferidos cd e amei-a profundamente ao ponto de não haver concerto pela cidade de Lisboa em que ela seja cantada que eu não assista. E mercê disso talvez seja a cantata que mais repetidas vezes ouvi. Já me decepcionei. E já me maravilhei. Agora e aqui, fica a minha preferida versão, a mais cristalina e harmoniosa das versões:

A cidade


Ontem, ao final da tarde, depois de me enroscar num belíssimo gin tónico e no maravilhoso amor perfeito, rumei ao Kaffeehaus para, na melhor das companhias, saborear um apetitoso strudel de legumes e partilhar uma deliciosa sachertorte, tudo atestado com um café cheio na mira de afastar o João Pestana das quatro (4) horas de teatro que se avizinhavam.
E que quatro horas, meus amigos!
Luís Miguel Cintra atacou cada uma das peças de Aristófanes traduzidas por Maria de Fátima Sousa e Silva para a Imprensa Nacional e, a partir delas, criou um maravilhoso espectáculo que começou por imaginar e que veio a transpor para o palco do S. Luiz em jeito de uma imensa festa do princípio quase até ao fim. Com vários piscares de olhos à revista, a brejeirice do texto, a excepcional encenação, a riqueza das composições e interpretações, a deliciosa música de Eurico Carrapatoso tocada ao vivo por uma mini banda filarmónica de coreto deu lugar a quatro belas horas de imensa e gostosa diversão. Muito, muito bom.
Do ponto de vista das interpretações não tive surpresas. São todos muito esperada e sobejamente bons. Todavia não posso deixar de salientar o profissionalismo e a excepcionalidade de Nuno Lopes que, para além de ser o brilhante actor que todos sabemos que é, se manteve em palco de canadianas e uma perna engessada, granjeando-nos alguns dos momentos mais hilariantes da peça. Outra não surpresa ou melhor outro bom atestado do que é a arte de bem representar vai para a Luísa Cruz que compôs cada um dos seus diversos bonecos de forma absolutamente exemplar, terminando nos ares do palco do S. Luiz vestida com as vistosas penas das imortais aves e compondo um encantador passaroco.
O texto? O texto é primoroso. Uma colagem magnífica de peças escritas há 25 séculos, prenhe de uma actualidade gritante que, a par e passo, nos faz crer que estamos numa revista de costumes hodiernos. E não deixa de ser curioso, como, subitamente, se descobre um comunismo absolutamente tolo e absurdo imposto pelo governo das mulheres que me cimentou a ideia de que Aristófanes confiava tanto no juízo, inteligência, sagacidade e bom senso do belo sexo como Eurípedes. Aliás, não deixa de ser curioso que uma semana depois de ter visto o soco no estômago que é o filme sobre a brutalidade das religiões e a extraordinária grandeza de Hipátia de Alexandria (Ágora de Alejandro Aménabar, um filme a não perder) me tenha entretido, durante quatro horas, a ver desfilar um outro olhar masculino sobre as múltiplas e canhestras tentativas femininas de dominar e de domar, num olhar que, pese embora seja não raras vezes caricatural, não me custa a reconhecer no nosso ramerrão.
No final, após muitas horas de gargalhas e gargalhadas e gargalhadas e sobretudo de um largo e efusivo sorriso no rosto, ficámo-nos com uma bela e poética alegoria e a certeza de que, mais dia, menos dia, mais aqui, mais ali, quando de branco nos passearmos, há-de haver um belo pássaro que nos cague em cima, a lembrar-me a quadra do Aleixo e a mensagem final e emocionada de que afinal o poeta tem razão e que, tanto então, como hoje, urge que se cuide o melhor que se pode e sabe dos nossos queridos anciãos, dos nossos amados Outonos e Invernos.

sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Viagem ao túnel do tempo


«Eu quero ...


Ser vida na tua vida

Na tua noite luar
Ser sonho no teu dormir
Aurora em teu acordar

Ser dos teus passos a sombra
Dos teus braços prisioneira
Ser dos teus olhos a luz
Dos teus dias companheira

Ser alma na tua alma
Coragem no teu desalento
Ser oração em teus lábios
Imagem no teu pensamento

Ser da tua dor o bálsamo
Do teu sonho a realidade
Ser do teu peito o calor
Da tua ausência a saudade

Ser dos teus beijos senhora
Do teu viver doce fado
Esperança do teu futuro
Redenção do teu passado!



Em tempo: Este poema foi escrito no tempo dos sonhos e como aí ficou congelado sem nunca o ter dedicado a ninguém fui buscá-lo ao túnel do tempo, puro e virgem, para tu o dedicares ao teu querido Perseu pois julgo que parece ter sido feito por ti e inspirado nele.

Mãe Lena»


Nota da Editora: Recebido por email dia 28 de Janeiro, pelas 12h54.
E agora digam-me lá se eu não tenho só razões para a adorar. Foi, sem qualquer centelha de dúvida, uma das melhores coisinhas que o bipolar 2009 me deu. Obrigada minha querida, doce e adorada mãe Lena!

Um domingo lisboeta


Se está por Lisboa ou nas suas imediações e não sabe o que fazer com o seu domingo, o A&OD sugere:


1) Sozinh@ ou em boa companhia vá tomar o pequeno almoço à Praça das Flores ou ao Chiado;


2) De seguida, suba até ao Principe Real e:


"Visita guiada ao Jardim França Borges - Príncipe Real
Vai ter lugar no próximo Domingo, 31 de Janeiro de 2010, pelas 11h30, uma visita guiada ao Jardim do Príncipe Real. Esta visita é promovida pelo grupo“Amigos do Príncipe Real”, é gratuita, e tem como objectivo dar a conhecer as características do jardim e as alterações que a Câmara Municipal de Lisboa está a implementar. A visita durará cerca de uma hora.
Os “Amigos do Príncipe Real” consideram esta visita a melhor forma de explicar as razões que nos têm oposto e que nos continuam a opor à intervenção da CML, ao mesmo tempo que viajamos da Grécia à Nova Caledónia, visitando as árvores do jardim. Sabe, por exemplo, porque é o Cedro do Buçaco duas vezes mentiroso? E sabe que está previsto o abate de 62 árvores no jardim desde Janeiro de 2009 e que a CML quer plantar árvores cuja plantação é ilegal em Portugal?
Venha visitar o jardim connosco.
Domingo, 31/Jan/2010, às 11h30.
Encontro no acesso à Esplanada do Príncipe Real" in Cercal da Eira;


3) Almoce onde bem lhe aprouver e desça até à Cordoaria para ver, em último dia, a esplêndida exposição das fotografias de Korda;


4) Envolto no espírito revolucionário, suba até ao Teatro da Trindade e assista, por entre algum espanto, uma tanta admiração e muitas e muitas gargalhadas, ao não se ganha não se paga do Dario Fo, com uma brilhante encenação de Maria Emília Correia, uma originalíssima e divertida cenografia de Rui Francisco, uns lindíssimos e surpreendentes figurinos de José António Tenente e 5 brilhantes interpretações de Cristina Cavalinhos (bravíssima!), Lucinda Loureiro, Luís Gaspar (magnífico!), Horácio Manuel e Rogério Viera e ainda com a divertida música ao vivo de Tiago de Sousa Derriça interpretada amenamente por Irina Brazhnik e Ricardo Torres; Verdadeiramente a não perder;


5) Depois? Depois vá para casa, faça um chá de erva príncipe, e deleite-se com o livro da colecção de literatura de viagens da Tinta da China que anda a ler.

Da desopilação

Alex Janvier, Sky reader

Há uns anitos, numa daquelas tão inesperadas quão apetitosas feiras do livro fora de época, comprei, por cinco euros, a Senhora Rattazzi do meu amado Camilo. Li-o num ápice, entre gargalhadas e volta-atrás-que-isto-merece-releitura, ficando mortinha de curiosidade para ler a obra que tinha dado azo a tão virulento e pessoal ataque: Le Portugal à vol d’oiseau. Poucos meses mais tarde, no sobe e desce do Parque Eduardo VII, deparei-me com a dita obra na cabaninha da Antígona. Fiquei vai-não-vai para o levar para casa, falando, na ocasião e bem mais alto que a minha estimada curiosidade, a dúvida sobre a qualidade literária da obra e a minha avareza. Todavia, levada da breca, anos volvidos e aproveitando uma conversa de serão à mesa da cozinha, voltou ela a levantar o tema e a lamentar-se do preço imoderado do livro da princesa. Voluntarioso e dado a fazer-me todas as vontadinhas, passados alguns dias da nossa conversa, o volumoso amarelo, verde e vermelho “Portugal de Relance” de Maria Rattazzi, veio, pelas mãos do belo Perseu e com o selo e carimbro de uma biblioteca pública, parar-me ao colo. Fiquei derretida, pese embora múltiplos outros entusiasmos em curso o tenham deixado num dos repousa pernas, até que na segunda-feira, relembrada da sua existência e vil abandono, o tenha puxado até mim. Uma autêntica delícia. Não só a Princesa Rattazzi escreve muitíssimo bem, como a sua análise mordaz e crítica é, à luz do nosso século e do que conhecemos desta nossa atávica idiossincrasia, absolutamente desopilante. Acresce que a Antígona, a editora, fez um belíssimo trabalho. Entre voltar a traduzir o livro e reeditar a tradução anónima do século XIX decidiu-se muitíssimo bem por esta última. Todavia, ao invés de se limitar a republicar, fez aquilo que entendo ser um apurado e aturado trabalho de edição e entregou a José M. Justo a missão de rechear o livro de pequenas preciosas notas explicativas quer do texto original da Rattazzi, quer das inovações do tradutor anónimo oitocentista. E esta é, para já e nas primeiras páginas do livro, a nota mais divertida: a Carta Primeira (cada capítulo do livro é intitulado por carta) dedicada à coroa foi sendo burilada pelo anónimo tradutor, suavizando os epítetos e mimos originais da Rattazzi dirigidos aos mais diversos membros da Corte. Cada nota de rodapé é, pois, uma estimulante e entusiasmante ferroada.
Certo é que a polémica estalou bem antes da tradução com aqueles remendos suavizantes ser publicada em Portugal:
A Rattazzi, que passou dois invernos a desfrutar os literatos de Lisboa, publicou agora um livro sobre Portugal, delicioso. Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo, estes mirmidões! Não se fala noutra coisa, e está tudo furioso”, escreve Antero de Quental a João Lobo de Moura, em 19 de Janeiro de 1880, em mais uma preciosa nota da Antígona. Múltiplos foram os seus detractores, destacando-se pela virulência, para além de Camilo, Maria Amália Vaz de Carvalho que ao que li terá investido no campo do ataque pessoal. Mercê disso mesmo, aquando da publicação do livro em Portugal, para além de uma dedicatória aos seus inimigos, a autora juntou um longo novo prefácio em que escalpeliza, detalha e desmonta, numa escrita muitíssimo cuidada, elaborada e erudita, as críticas e ataques pessoais de que foi vítima. Lida a dedicatória, os prefácios e a Carta Primeira, faltam-me agora as restantes 24 e fazer algo que me apetece muitíssimo: descobrir no caos das estantes lá de casa o "A Senhora Rattazzi" a fim de fazer o necessário cotejo deste projéctil com aquela obra demolidora de Camilo. É, pois, provável, que ainda este ano (!) a eles volte com igual entusiasmo.

A primeira vez (take 6)


Não me recordo quando ouvi o primeiro Mozart.
Mozart e Beethoven pertencem à galeria dos enormes que qualquer alminha minimamente atenta, ainda que de raspão, já frequentou. Assim estou eu. A primeira audição de Mozart ter-se-á dado na infância e, seguramente, ao longo da juventude e dos anos de faculdade muitas vezes terei ouvido uma ou outra ária, um ou outro concerto.
Lembro-me, no entanto e como se fosse hoje, da primeira vez que ouvi a apaixonante sinfonia concertante:



Ia no meu nervoso 206, na companhia do JAT e lembro-me de o olhar atónita e exclamar: mas isto é Nyman!



É um lugar comum, mas uma verdade insofismável: de Mozart gosto de tudo, com entusiasmo e sem excepção, sendo que tenho o Idomeneo como uma das minhas óperas favoritas:



Todavia, não posso deixar de admitir que nesse domínio operático é difícil não nos pelarmos pelas árias compostas para a cunhada Aloysa Weber,


pelo Cosi fan tutti


pelo D. Giovanni,



pela Flauta Mágica



e, subitamente, sinto-me infinitamente pequenina: a grande missa em dó menor, o requiem, os divertimentos, a música maçónica e, inevitavelmente, os seus concertos para piano:



Belo. Belo. Belo. Enorme e infinitamente belo.
Grande. Grande. Grande. Poderosamente enorme.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

O amarelo das reclamações

foto tirada daqui

Há uns anitos, li, por entre um desmedido encantamento, uma estranha e ruidosa inquietação e uma desbragada perplexidade, o Deserto dos Tártaros. Fiquei viciada. Num intercâmbio literário com o P, li também “os sete mensageiros” e “o segredo do bosque velho” que adorei. Há dias, num saldo da Fnac arrematei “o segredo do bosque velho”. Embrulhei-o a preceito e ofereci-o ao meu belo Perseu que não só o devorou, como ficou mortinho de curiosidade para ler a restante obra do Senhor Dino Buzzati. Senhora do meu papel de anfitriã, lá fui debitando, na minha voz Maria Augusta Gonçalves, que, em Portugal, para além da deliciosa história do bosque só estava editado aquele que é considerado o seu magno romance e um livrinho de contos, os quais eu já tinha lido. Estava nisto, bem instalada nas minhas insubsistentes certezas quando, de olhitos arregalados, vi, de um dia para o outro, os braços e o assento do sofá vermelho cobertos de vários novos livros de Dino Buzzatti. Eis que a Cavalo de Ferro, às minhas escondidas e revelia, tinha dado ao prelo mais três novos livros. Malandros. Se é coisa que se faça, vociferei. Estas coisas, ainda que por interposta pessoa, avisam-se. Estava nisto, reclamação bem estribada, quando, pela mão do José Mário Silva, fico alertada que ainda neste jovem ano a equídeo de metal editará mais um livrinho do bem amado escritor italiano: O Grande Retrato. Abre-se o rosto num sorriso: ora, pois assim é que é! Lindos meninos!, exclamo, dirigindo-me num sussurrado aparte à minha atenta abotoadura: é impressionante como, neste pobre país, as coisas só funcionam a toque de queixinhas.

A primeira vez (take 5)


O 5 estava destinado a Monteverdi, ao meu doce Monteverdi. Mas eis que me deu uma urgência de Gluck: a primeira de Gluck. Ora, a primeira de Gluck surgiu logo a seguir à cassete poteporriana. Um dos meus mais dilectos amigos ofereceu-me o meu primeiro cd duplo da Callas e foi o coup-de-foudre:



Assim que consegui economizar uns tostões, comprei a ópera insistindo, ainda que sem Callas, na versão francesa:


e deliciei-me.
Pouco de depois chegaram-me as versões italianas, fazendo-me vacilar entre este novo amor e aquela paixão à primeira audição:



Em francês ou em italiano, é sem margem para dúvidas uma das minhas óperas favoritas que, curiosamente ou não, é considerada, nem mais, nem menos, que a grande reformadora do género. Seja como for, o certo é que sempre me emocionei às lágrimas com ela, mormente com este pungente lamento, este flamejante coroar do mais tolo gesto de um desacatador Orfeu que condenou a bela e insegura Eurídice aos calores negros e profundos do inferno.

As traças roeram as sacas da naftalina # 6

Remanso, ofereceu-me o belo Perseu.
Remanso, pois então.
Uma esbelta palavrinha que tende a ficar esquecida, postergada pelo corriqueiro descanso.
Nos dias de doce remanso, nada me dá mais prazer que usufruí-lo na companhia de um bom livro, com música a calafetar ausências. Era assim na era a.P.

Agora, nesta nova era, nada como o dulcíssimo remanso de dois corpos agarrados ao seu respectivo livro, a música a encher as falhas do aquecimento e a gata Camila, naturalmente, aos seus pés.