terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Da criação

Gustave Doré (ilustração de Orlando Furioso de Ludovico Ariosto)


Há momentos, elegemos, por entre o meu adorado Handel e a sombra dos seus amados plátanos, a nossa ária:


Ombra mai fu
di vegetabile,
cara ed amabile,
soave più.

(malgrado a má condição da gravação, a versão preferida do meu belo Perseu)





(e já de seguida, um senhor cavalheiro da minha predilecção)




(e, por último, a encantadora escolha da dona da casa, a gata Camila)



sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

A galinha do meu vizinho (2) ...


... hoje está tão deslumbrante que mais parece um pavão.

José Bandeira, in Cravo & Ferradura, no DN de hoje

Tempo demasiado pequeno

Finalmente, Outono, Outono. Um molho valente de margaridas vermelho-sangue-de-boi que fui buscar à florista das Amoreiras. Amanhã, pela manhã, tenho duas campas de mármore branco para alindar e excessivas ausências "de pedra desenhada". Algumas dores. Esparsas e difusas.
Amai. Amai muito.
Há, em nós, um tempo demasiado pequeno.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Assim a modos que Caribe

A minha visão materialista da amizade acaba de se manifestar ruidosamente.
Através do Facebook do meu amigo AL, travei conhecimento com esta cachopinha, Buika, que, na minha larval ignorância, desconhecia completamente e que uma sumária busca pelo google me assinalou que ela até já no CCB cantou ... Snif, snif, snif.
Ora, para quem tenha um Scotty de serviço ou esteja por perto, cá fica o aviso: é hoje, à noite no Palau da Musica, em BCN.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

A galinha do meu vizinho


Estes bonecos são muito bons, mas olhe que estes não lhe ficam atrás:

José Bandeira, Cravo & Ferradura, no DN de hoje

Espalhem a notícia # 2

O Árvores de Portugal é mais do que um blogue: é um tira-gosto, um descansa-olhos, um apazigua-mentes, um alija-almas, um relaxa-corações, um desopila-fígados, enfim, um enorme à suivre.

Eu que até não vou à bola com tenores, acho que este senhor, Richard Croft, canta muitíssimo bem e vale bem a pena ver esta pequena amostra de como se pode encenar o Messias do mestre Haendel:



Ainda e por último de novo o Paris Review: o livro está pejado de pequenas notas de pé de página da lavra do tradutor e organizador Carlos Vaz Marques que são uma preciosidade.


Vera Tavares, Truman Capote, Ilustração inserta em Paris Review

Na entrevista a Truman Capote, a dada altura o escritor responde:"O que é o estilo? E que som, pergunta koan zen, faz uma mão? Na verdade ninguém sabe; e no entanto ou se sabe ou não se sabe."

Mais abaixo, na nota de pé de página: "koan é um pequeno enigma, normalmente paradoxal, de solução impossível à luz da lógica. Aquele a que se refere Truman Capote é o que pergunta: "Qual o som de uma só mão ao bater palmas?"

Precioso, não é?

A matéria das palavras

O Boas Intenções, por estes primeiros dias de Novembro de 2009, comemora o seu 5º aniversário. A sua autora, a Rita Maria tem, para além de um excepcional e desempoeirado sentido crítico, uma escrita esguia e escorreita, oferecendo-nos interessantes e estimulantes posts sobre os mais diversos assuntos. Um exemplo? Não. Não há um exemplo, há um blogue inteiro para ler: entrai no Boas Intenções e desfrutai a vosso belo prazer a escrita e o aguçado pensar da Rita Maria.
Sucede que, há uns meses, o A&OD foi distinguido pela Rita Maria que o colocou na sua lista de intenções dos outros (boas ou más, à escolha do freguês). Ora eu, mercê dos atropelos da vida, acabei a deixar para hoje o agradecimento e a habitual retribuição com as palavrinhas dos poetas, in casu, a estimulante Ana Hatherly, juntando assim de uma assentada o OBRIGADA, Rita! com o PARABÉNS, Rita!:

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


Ana Hatherly, in Pavão Negro

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Espalhem a notícia

Esta senhora canta maravilhosamente bem:



Dia 2 de Dezembro, na Gulbenkian, às 19h, (os bilhetinhos já cá cantam!) poder-se-á ver e ouvir Gustave Dudamel:



"O objectivo de qualquer artista é aprisionar o movimento, que é a vida, por meios artificiais, e retê-lo de modo a que um século mais tarde, quando um estranho olhar para aquilo, aquilo volte a ganhar o movimento da vida."

William Faulkner, in Paris Review, um livro exaltante e sobretudo muitíssimo bem traduzido e organizado pelo Carlos Vaz Marques. Embrenhada na sua deliciosa degustação, a ele voltarei.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Coração inconstante

René Magritte, The Lovers

Amo e odeio. Como? Perguntais por certo.
Não sei, mas sei que sinto e sei que sofro assim

Tradução do célebre amo et odi de Catulo que me veio à memória ao ler a cogitação da minha querida Antuérpia. Curiosamente, nesta voragem, poucas são as noites - já que os dias são feitos de muito labor exigente ...- que tenho dedicado à poesia: na mesa de cabeceira, soterrados pela diversa prosa, perseveram Bertold Brecht que me foi oferecido, no meu aniversário, justamente pela minha doce Antuérpia e a antologia de poesia cubana contemporânea que comprei na Fnac. E, agora que escrevo, noto que me tem feito falta o meu ritual passarinhador pelos escaparates da poesia das livrarias – que me permitiu descobrir, por exemplo, os livrinhos de intensa poesia de valter hugo mãe -, mas e sobretudo, sofro com a ausência de um novo João Miguel, o meu dilecto. Noto também que este meu afastamento da poesia, só sublinha o quão embrenhada ando no meu quotidiano assoberbado. É que a poesia sempre me exigiu tempo e espaço. Sem eles de nada me vale a deambulação.
Esforço-me, e não me ocorre um qualquer poema que me tivesse suscitado, ao contrário da minha querida Antuérpia, um qualquer grãozinho de ódio. Já um estranho incómodo, uma espécie de dor e uma certa angústia lograram aterrar em mim, à vez e em uníssono, após o consumo imoderado de alguns poetas. Paul Celan é um deles.
Hoje, porque devo um poema à Antuérpia, em jeito de agradecimento pelo link que simpaticamente fez para o A&OD, deixo-a na bela companhia desse maravilhoso poeta. Não porque a queira ver sofrer, mas porque lhe quero retribuir, através das palavrinhas dos outros, a sua intensa beleza:

Coração inconstante, a quem a charneca edifica a cidade
no meio das velas e das horas,
tu sobes
com os choupos até aos lagos:
aí talha a flauta, de noite,
o amigo do seu silêncio
e mostra-o às águas.
Na margem
vagueia embuçado o pensamento e escuta:
pois nada
surge com a sua própria forma,
e a palavra, que brilha sobre ti,
crê no escaravelho dentro do feto.


Paul Celan, in "Papoila e Memória"
(Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno)

domingo, 1 de Novembro de 2009

Dia de todos-os-Santos

Rapariga poupadinha, em boa verdade vos conto que, apesar do dia ser de todos os santos, andei, o dia inteirinho, pela mão de Santa Cecília.

É que, ontem, nas nossas deambulações de fim-de-semana, acabei surpreendida pelo puto maravilha, que antecipando o meu aniversário me agraciou com esta pequena maravilha em dois cd's: 3 dos meus eleitos (Purcell, Handel e Haydn) a consagrarem a sua belíssima música à sua santa padroeira.

Sucede que, como não poderia deixar de ser, na busca frenética e frustrada de localizar o tocante Et incarnatus est da Missa Cellensis de Haydn, pelos Musiciens do Louvre e pelas belíssimas vozes de Richard Croft (e eu que até nem vou à bola com tenores, vibrei a bom vibrar com este senhor), Nathalie Stutzmann (um contralto de timbre tão aconchegante e aveludado que só me ocorre uma seroada à lareira, saboreando um bom e generoso tinto) e de Luca Tittoto (tão grave, tão grave, tão seguramente grave que até arrepia), dirigidos pelo excelente Marc Minkowski, deparei-me com inúmeras pérolas, das quais, pela melancolia que encerra (que tanto se aproxima do estado de espírito que dias como o de hoje e o de amanhã me aportam), selecciono esta:

Lieux funestes, où tout respire
La honte et la douleur;
Du désespoir sombre et cruel empire,
L'horreur que votre aspect inspire
Est le moindre des maux qui déchirent mon cœur.

L'objet de tant d'amour,
la beauté qui m'engage,
Le sceptre que je perds, ce prix de mes travaux,
Tout va de mon rival devenir le partage;
Tandis que, dans les fers, je n'ai que mon courage
Qui suffit à peine à mes maux.

Ah não se deixem tolher pela minha melancolia, envolvam-se tão só na sua beleza e encanto e entrem bem no segundo já de Novembro. Estamos aqui, estamos no Natal.